Barreiras para a união das lutas

Jogo da Direita

 

 

 

 

Os movimentos identitários são muito importantes por atacar problemas mais específicos que costumam ser eclipsados por pautas mais gerais, porém o discurso que eles vêm usando é péssimo por motivos que destacarei aqui.

Protagonismo é um aspecto importante, sem dúvida, mas deveria ser encarado da forma mais prática possível em vez de como um axioma metafísico. É uma simples questão de bom senso que as pessoas afetadas por determinados problemas sejam as protagonistas de suas lutas em vez de levadas a reboque por forças e interesses externos. Porém, quando assume-se que determinada pauta só pode ser compreendida ou mesmo defendida pela vítima direta da respectiva opressão, joga-se pela janela qualquer pretensão de buscar uma realidade objetiva cujo conhecimento possa ser compartilhado. Sobrando o subjetivismo, a soma de forças por uma causa comum se torna improvável, já que tudo não passa de ponto de vista. Não se pode rebater críticas nem demonstrar afirmações. No fim, a luta se vira contra o objetivo que se buscava originalmente: a defesa da alteridade perante a sociedade.

Há militantes que nem mesmo buscam somar forças por um bem comum, por não acreditarem que haja bem comum, pois além do outro ser considerado incapaz de compreender o seu sofrimento, ele não raro se encontra num patamar da sociedade mais privilegiado, por pouco que seja. Sim, esse privilégio existe. O negro ainda corre risco de ser mal tratado numa loja mesmo se for rico. O negro da classe trabalhadora é muito mais sujeito a revista e violência policial.

Não é possível negar que exista essa diferença de tratamentos e oportunidades, mas preciso, mesmo assim, evocar a crítica feita por Murray Bookchin: ocorre aqui a idealização de um inimigo abstrato que não corresponde a nenhum indivíduo em particular, mas acaba sendo associados a todos dentro de uma tal categoria. Tal idealização faz com que um negro possa antipatizar com qualquer branco, independente de tal branco ser um proletário pauperizado e enfermo apenas tentando sobreviver a mais um dia de trabalho precário. Sim, esse proletário branco provavelmente não sofrerá tudo que o negro sofre, mas ele deveria precarizar ainda mais sua vida dura para diminuir tal desigualdade? Nem o militante negro nas cidades brasileiras largaria o computador no qual ele posta textão, por exemplo, por este conter estanho e ouro extraídos por pessoas em condições tão péssimas que ele jamais conhecerá.

De forma nenhuma defendo o conceito de racismo reverso, pois racismo é um traço cultural instituído numa sociedade, logo um fator sistêmico e não acontecimentos isolados. O negro no Brasil não conta com instituições para praticar racismo contra brancos (por instituições, me refiro a tradições e práticas largamente compartilhadas). Mas isso não quer dizer que ele, individual e pontualmente, não possa ser um babaca com uma pessoa não-negra. E menos ainda justificam-se ações separatistas numa sociedade onde as opressões são todas entrecruzadas. Do contrário, deveria eu, então, odiar minha mãe, que era “branca”?

E então chegamos ao primeiro dos problemas práticos que mais chamam atenção com relação ao assunto: as disputas para ver quem leva o troféu de mais oprimido. Qualquer um pode torcer a cara para tudo que falei até agora, mas não dá para negar isto aqui. Quem não já viu ou nunca ficou sabendo de casos onde um militante negro comete machismo contra uma mulher branca, de uma mulher branca crescendo contra um negro por se achar acima de críticas ou de um homossexual sendo machista ao acusar uma mulher de homofobia? Se você acha que atacar os outros é uma forma de compensar as opressões que você sofre, saiba que sempre há alguém que sofre mais do que você e você não o ajuda nem um pouco dessa maneira (como as crianças escravas nas jazidas na Ásia e na África). É preciso dar uma chance à compreensão interseccional das opressões na sociedade, pois nenhuma das relações que nos afetam são isoladas. Não me refiro a ouvir cada história pessoal para saber como em cada indivíduo as opressões se entrelaçam, embora isso seja também importante, mas compreender como os sistemas de opressão se apoiam, se reforçam, e, em certos casos,  dependem uns dos outros e perceber que não é possível lutar uma luta sem a outra. Não é possível que o movimento negro não busque o fim da dominação econômica, pois isso seria abandonar vários deles mesmos à miséria que não foi combatida em si mesma. Não deveria ser possível que feministas se satisfaçam com maior acesso a cargos de chefia, pois seria a combinação do “ela tava provocando” com a meritocracia para aquelas que ficarem para trás. Não deveria ser admissível que LGBTs festejem cada vez que a cultura de massa ou o mercado jogue uma migalha de assimilacionismo. Igualmente, não se pode disputar a luta de classes sem lutar todas as outras lutas, pois deixar que alguns grupos da sociedade continuem desprivilegiados com certeza refletirá em seu acesso aos bens materiais e aos recursos de produção e, dessa forma, não poderá ser criada uma sociedade sem classes, pois tais grupos comporão uma nova classe explorada.

E o ponto acima nos leva ao segundo grande problema prático que mais chama atenção quando irrompe: como essas disputas internas permitem que oportunistas usem de pautas tão importantes para prejudicar as lutas. Já vi gente atiçar o ânimo de militantes para que expulsassem mulheres brancas de ato como forma de expurgo. Já vi mulheres usando apito de segurança para ajudar partido a tentar melar ocupação estudantil. Um discurso extremista e separatista é facilmente apropriado, pois cria entre os entristas e os legítimos uma concordância, dando voz aos primeiros, que aproveitam tal oportunidade para manobrar os legítimos. E não raro conseguem, pois mexem justamente em seus brios através de clichês com os quais eles já tomaram como verdade previamente. Esse é um dos grandes perigos da idealização, da abstração a perder de vista: é o dogmatismo. Não haverá caso prático que mereça ser examinado de perto perante um dogma, pois este já vale em absoluto, precisando apenas ser evocado de lá do Mundo das Ideias.

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