Esclarecimentos

O texto original foi retirado do ar porque as retaliações sofridas por mim estavam atingindo também meus companheiros de coletivo que nada tiveram a ver com minha iniciativa individual. Meu erro foi não ter deliberado junto ao coletivo do qual participo para que compuséssemos juntos a nota mais apropriada possível. Fora este erro, não volto atrás em nenhum outro ponto. Finco o pé por tudo que disse. Alguns membros da assembleia que gere a campanha pela liberdade de Rafael Braga Vieira estão incorrendo em oportunismo e outros membros estão se deixando influenciar. Os relatos de um dos fundadores corroboram o meu, de modo que não preciso prestar satisfações a nenhum outro fundador. Elenco aqui os dois motivos pelos quais postei o texto original:

1 – Procurei incentivar ativistas e manifestantes para que procurassem criar outras iniciativas de apoio à causa do Rafael Braga Vieira, pois a assembléia da Cinelândia não possui monopólio da causa e já tornou público seu antagonismo à causa de outros ativistas e coletivos. Como Rafael não tem culpa de nada disso e não merece ser prejudicado mais do que já o prejudica o estado, é imperativo que a campanha pela sua liberdade se multiplique antes que confusões internas a implodam. Para tal objetivo, a denuncia não poderia ser feita de forma privada, mas pública.

2 – Companheiros e amigos meus foram agredidos, difamados, repelidos e expostos ao perigo. Isto é inadmissível e não creio ser necessária justificativa além disso.

Se alguém entendeu que não há mais anarquistas na assembleia da campanha, peço desculpas por passar tal impressão errada, embora o texto original afirmasse o contrário. Se tais anarquistas acreditam que a melhor forma de ajudar Rafael Braga é continuando com a assembleia em vez de construindo iniciativa paralela, é de sua liberdade. Desses, aqueles tentaram varrer as denúncias para debaixo do tapete, esses não trilham o mesmo caminho que eu e, de mim, não merecem mais consideração alguma.

O texto original se encontra arquivado, podendo ser republicado quando eu quiser se assim achar apropriado, porém ficará oculto enquanto pessoas inocentes puderem ser pegas no fogo cruzado. Esta nota também não foi redigida em coletivo, o que mostra que a) eu não aprendo, mesmo e b) por responsabilidade dos meus atos individuais, preciso dar esclarecimento individual. Nenhuma outra pessoa está envolvida no que aqui expresso.

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UPDATE: O texto volta aqui a ser publicado.

A cooptação da Campanha pela Liberdade de Rafael Braga pela ex-querda oportunista.

ESCLARECIMENTO DO AUTOR: Voltei a falar com os companheiros envolvidos e eles voltaram a confirmar as informações passadas no meu texto. Pior ainda, descobri mais um caso de mulher sofrendo machismo e que o anarquista descrito próximo ao fim do texto, um dois mais empenhados na campanha, foi expulso. Os outros anarquistas ainda presentes, como o que enviou a resposta abaixo, fazem vista grossa para não prejudicar a causa.

RESPOSTA: Membros anarquistas negam que esteja havendo cooptação da campanha. Dizem eles que este artigo é um desserviço, que apresenta uma conclusão torpe e pedem que mais anarquistas estejam presentes até mesmo para evitar que sujeitos oportunistas possam agir de má fé.

Texto original:

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Acabo de voltar da passeata da campanha pela liberdade de Rafael Braga, no centro do Rio. Eu, sinceramente, preferiria não ter ido. Que os partidos, que nunca ligaram para o Rafael, resolveram só agora aderir à campanha, todos já sabem. Só que eu não sabia que a coisa tinha atingido níveis tão assustadores. O que está havendo é basicamente entrismo. Indivíduos de partidos se fazem presentes para afastar ou mesmo expulsar os membros originais da campanha, um a um, sob acusações de racismo. Mulheres abandonaram a campanha por se levantarem contra machismo e serem acusadas de volta de racismo. Mais uma vez, partidários se aproveitam de uma causa importantíssima, nesse caso, a causa do povo negro, para afastar indesejáveis e influenciar grupos que estejam participando da campanha.

Na Rua Primeiro de Março, a polícia tentou forçar meia-pista e, para tal, um dos PMs empurrou com força uma companheira anarquista que carregava uma faixa, jogando-a para fora do caminho. Nisso, dois outros companheiros anarquistas foram em defesa dela, mas  alguns manifestantes resolveram acusá-los de tentar sabotar o ato. Um desses membros mais recentes da campanha tentou expulsar um deles e bradou para outra: “Não quero branca gritando comigo”. Então pergunto: um homem gritar com uma mulher só porque ela é branca pode? Vamos agora fazer disputa de qual opressão é pior, como se não tivéssemos coisa mais importante a fazer, como lutar contra todas elas? Essa companheira afirmou depois que tal sujeito, em 2015, causava aborrecimentos sem razão com os anarquistas do Ocupa UERJ e conseguiu expulsar o MEPR de lá sob acusação de racismo, embora descobrissem depois que ele nem ao menos esteve presente na ocupação no dia em que disse ter sofrido racismo. Ainda segundo ela, ele é do PT. Embora a campanha tenha proibido ações partidárias, membros de partido que não levantem bandeira não são proibidos. Mesmo que não façam campanha de cunho eleitoral em nome de Rafael Braga, eles ainda são capazes de contaminar o movimento com suas práticas. O sujeito não aceitou o argumento de que estaria culpando uma mulher pela agressão policial que ela mesma sofreu. Um policial foi para cima dela e exigiram que ela fingisse que nada aconteceu. A partir daí, o bloco anarquista ficou sendo “aqueles brancos fazendo merda”. Hoje, dos nossos companheiros anarquistas negros, infelizmente nenhum pôde comparecer. Eu que não sou branco, mas também não sou negro, não estava tão perto da treta para  me ver envolvido na polêmica.

Uma outra manifestante também foi falar desaforos para o nosso amigo anarquista que foi defender a menina agredida. Só que essa não era membro da campanha, mas a branquíssima “líder” estudantil da UFRJ e militante do PSOL-Juntos, defendendo que ele estava sendo racista. Racista por defender uma mulher de machismo. Ela passou todo resto da manifestação vigiando o nosso bloco mais do que a própria PM. Aliás, a companheira agredida e quem a defendeu tiveram de deixar a passeata antes do fim porque os PMs envolvidos estavam de olho neles e eles não queriam nem ser estopim da repressão sobre a manifestação nem ser presos por maldade. E os militantes do movimento negro, convencidos de que eles eram um estorvo, os deixaram isolados e expostos aos PMs mal intencionado, sob risco de rodarem.

Longe de me colocar contra o movimento negro, essa foi uma passeata bem pequena que nem serve como exemplo do movimento como um todo e, mesmo assim, boa parte dos manifestantes negros nem se envolveram na confusão e nem a entenderam direito. No fim da passeata, alguns dos que estavam mais à frente vieram até nós saber o que raios tinha acontecido e se mostraram surpresos. É muito chato estar numa manifestação contra uma vítima da crueldade da PM e perceber que ela está sendo complacente com suas arbitrariedades. Ok, nós sabemos que os negros na favela passam por abuso policial todo santo dia, mas isso é motivo para deixar companheiros em perigo de rodarem durante ato pois eles têm menos chance disso no cotidiano? Eu acredito na honestidade do porta-voz da manifestação, mas me desceu mal o tom de trégua com a polícia (“Não estamos aqui para entrar em confronto com a polícia”), até porque é a polícia o motivo daquela manifestação. Foi ela que, por duas vezes prendeu de maneira forjada Rafael Braga. Passou batida a oportunidade de explorar, na frente dos próprios PMs, a incongruência do enorme número de negros que se tornam policiais e servem à máquina de oprimir e exterminar negros. E essa parecia uma oportunidade de ouro: como que para deslegitimar a manifestação, TODOS os PMs destacados para vigiar o ato eram negros! TODOS! Foi como se o comando do batalhão dissesse: “Se esse tal de Rafael fosse um preto de bem como vocês, meu batalhão, ele não teria sido condenado”. E o que o trabalhador viu nas ruas foi um pequeno grupo do movimento negro acusando a PM de racismo enquanto rodeado de vários PMs negros. E isso não foi abordado, deixando muitas das pessoas ao redor concordarem com a hipotética colocação do hipotético comandante que eu disse acima.

Mas quem eram esses companheiros que foram defender a jovem agredida e foram esculachados? Uma é um membro veterano da campanha que tem acompanhado o caso de perto e não tem só aparecido em dia de ato. O outro é um dos fundadores da campanha e sem cujos esforços ela provavelmente não teria durado até os dias de hoje. Foram esses dois que o sujeito da UERJ e a militante do PSOL tentaram expulsar do ato, convencendo uma parte dos militantes do movimento negro e outros. Pelo menos um membro da FARJ não levantou um dedo para defendê-los e teve até um amigo meu, muito equivocado, xingando esse companheiro, tendo pedido desculpas depois ao ver que eles conheciam gente em comum.

Há prática mais típica dos partidos do que acusar a vítima de violência policial de desestabilizar uma manifestação, quando a culpada é, obviamente, a polícia com sua violência? Talvez só a de dividir e desestabilizar um movimento, criando desentendimentos, para poder aumentar sua influência. Portanto, mesmo que partidos sejam expulsos por levantarem as bandeiras de suas legendas, como o PCB que, apesar disso, atuava de verdade na campanha, não dá para dizer que os partidos não estão presentes, pois membros notórios de partidos estão lá realizando ações típicas. E tais ações conseguem influenciar os membros do movimento negro porque muitos destes acreditam que luta de classes é um assunto completamente isolado da opressão que o negro sofre, com alguns até mesmo dizendo que é assunto de branco. Esquecem que nossos antepassados africanos foram raptados e escravizados por motivo puramente mercantilista. Foi o primeiro e único momento na história em que uma raça inteira (considerando raça como o construto social inventado pelo opressor) foi considerada disponível como mercadorias servindo ao lucro. Antes disso, mesmo que já houvesse venda de escravos, a escravidão era forma de punição ou espólio de guerra, mas nunca até então a redução de membros inteiros de uma raça a objetos, a gado. O responsável pelo sofrimento dos negros de lá até hoje é o capitalismo. E mesmo enquanto alguns socialistas consideram até hoje que a única pauta válida é a luta de classes, os anarquistas sociais reconheceram que para vencer a luta de classes, é imperativo que se vença também todas as outras opressões, inclusive o racismo, pois apenas revolucionar as relações de produção não significarão nada para quem continuar oprimido por outros motivos, enquanto combater as outras opressões sem destruir a divisão de classes baseada no acúmulo e a carência de capital é levantar o dedo do meio para os membros das minorias que continuam pobres. Mas são justamente os anarquistas os mais acusados de problemáticos, incompatíveis, levianos e burgueses. (A trilha sonora de tiros constantes disparados por traficantes, policiais e milicianos disputando o domínio do meu bairro me diz que eu não sou burguês. As revistas aleatórias que já sofri na juventude também.)

O que está posto é uma chantagem dupla: a) abaixem a cabeça ou sejam acusados de racismo e b) se vocês resolverem abandonar a campanha, não é a nós que abandonam, mas ao Rafael Braga. Já aconselhei aos companheiros rechaçados que não mais componham junto a esses elementos, buscando outros grupos aos quais eles não tenham acesso. Imagino que outros companheiros anarquistas continuarão compondo com o mesmo pessoal para não cessarem de prestar assistência ao Rafael e sua família pessoalmente. Há pelo menos um companheiro anarquista que o acompanhava nas idas e voltas ao trabalho durante o semi-aberto e que continua visitando-o. Eles terão de baixar a cabeça a esses novos paladinos do pau oco se quiserem continuar esse trabalho ou serão acusados de quererem aparecer. Aprendam: anarquista  são os primeiros a sofrerem maldade nas mãos da polícia durante atos e os primeiros a serem jogados como boi-de-piranha pelos pelegos. Para que quereríamos aparecer, então? É por isso que em boa parte das vezes usamos máscaras (e mesmo assim falhamos em  evitar fazer parte dos relatórios dos monitoramentos da polícia).

Eu poderia dar nome aos bois. Uma deles eu conheço pessoalmente. O outro, meus companheiros conhecem. Mas como temo pela minha segurança, melhor manter os nomes em segredo. Esse artigo já vai me foder o suficiente do jeito que está.

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