Entrevista com a IRPGF no Curdistão Sírio: “A IRPGF estará lá para lutar e trabalhar nas revoluções sociais ao redor do mundo.”

Publicada originalmente em 04/04/2017, em Enough is Enough. Tradução de Cris Oliveira.

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Uma entrevista com os camaradas da International Revolutionary People’s Guerilla Forces (IRPGF) em Rojava.

Enough is Enough: Faz alguns dias que recebemos o anúncio da criação do IRPGF. Não é o primeiro grupo de guerrilha a operar em Rojava. Quais a diferença entre a International Antifascist Tabur e a IRPGF?

IRPGF: Primeiramente, a IRPGF é um projeto explicitamente anarquista que possui vários objetivos especificamente para avançar a causa anarquista, não apenas em Rojava, mas ao redor do mundo. Nesse sentido, a parte “Internacional” do nosso nome funciona de dois modos – primeiro e mais obviamente, nosso grupo é formado de pessoas de diferentes países e, segundo, consideramos a luta contra a dominação internacional e conectada, que com certeza implicará em levantes em cada vizinhança através do mundo. Portanto a IRPGF não é apenas um grupo militante para anarquistas entrarem e lutarem contra o Daesh (ISIS), mas também é um grupo que está criando infraestrutura que possibilitará a anarquistas se juntarem e aprender como avançar a luta anarquista quando voltarem para casa. Segundo, os membros do IRPGF estão cientes de que uma revolução abrange tanto esperas sociais como militares da vida; portanto, acreditamos ser crucial que anarquistas quem venham a Rojava ganhem experiência tanto em projetos civis como militares, se desejarem, para desenvolverem uma concepção mais compreensiva de como uma revolução realmente se parece na realidade. Por essa razão nós também planejamos desenvolver projetos civis dos quais anarquistas possam participar. Essas são apenas duas das principais características que acreditamos definir a singularidade da IRPGF.

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Ao Brasil, mensagem de solidariedade: “As armas mais básicas do povo serão sempre encontradas nas ruas. Solidariedade aos trabalhadores do Brasil.”

EiE: Qual papel a revolução em Rojava representa na luta transnacional anarquista em sua opinião?

IRPGF: A revolução de Rojava é uma luta indígena contra o estado, o capital, o colonialismo e o fascismo. Além do mais ela coloca a libertação da mulher e a destruição do patriarcado na linha de frente da luta, já que acredita-se que a dominação do homem sobre tudo não pode ser parada se a dominação sobre as mulheres for mantida intacta. Assim, enquanto esta não é uma revolução explicitamente anarquista, ela definitivamente tem características anarquistas e é uma revolução que todos os anarquistas devem apoiar. Além de simplesmente ser necessário que anarquistas apoiem as lutas dos mais oprimidos onde quer que estejam, Rojava é importante para a luta anarquista transnacional porque lança luz sobre como uma revolução deve ser levada e mantida. Por exemplo, desde organizar assembleias de vizinhança até treinar grupos militantes de defesa que possam resistir a fascistas nas ruas, nós já vimos como a revolução inspirou e até mesmo proporcionou um projeto para anarquistas progredirem seus movimentos mais localizados no ocidente. Novamente, a IRPGF vê todas essas lutas como peças conectadas e importantes para a revolução mundial que queremos e pedimos com urgência que, se possível, anarquistas venham para ajudar e aprender com a revolução.

EiE: No anúncio estava escrito que a IRPGF está trabalhando “para defender revoluções sociais ao redor do mundo, confrontar diretamente o capital e o estado e avançar a causa do anarquismo.” Nos dias que se seguiram, lemos declarações de solidariedade sobre a Bielorrússia e okupas em Atenas. O IRPGF está trabalhando para conectar lutas?

IRPGF: Acreditamos que lutas contra dominação e autoridade já são conectadas simplesmente por sua natureza. Tudo que apenas queremos fazer é revelar e fortalecer tais conexões tanto através de atos simbólicos como práticos de solidariedade. Novamente, o “International” em nosso nome funciona de duas formas e assim sendo, nos esforçamos para apoiar e fomentar lutas internacionais que possam levar a revoluções internacionais. Para isso, precisamos, claro, lançar luz e fortalecer as conexões que existem entre todos nós lutando pela libertação.

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IRPGF junto à União Revolucionária para a Solidariedade Internacionalista (RUIS / ΕΣΔΑ), em mensagem de solidariedade a Atenas, Grécia.

EiE: Na carta de posicionamento da IRPGF estava escrito que “Para a IRPGF, métodos pacíficos são incapazes de confrontar e destruir o estado, o capitalismo e toda forma de poder kyriarcal (NdoT: kyriarcado [kyriarchy]: as diversas relações de dominação e submissão que se interseccionam e tornam possíveis umas às outras). Na verdade, tais métodos funcionam ao contrário.” Poderia nos explicar por que métodos pacíficos não podem derrotar o capitalismo em sua opinião?

IRPGF: É bastante claro historicamente que todo movimento de resistência contra a dominação baseada estritamente em “meios pacíficos” não apenas falham em produzir qualquer mudança substancial, mas também são usados por aqueles no poder como meios de afunilar a força e o potencial revolucionários num nada irrecuperável, não-ameaçador e estagnante. Considerando os leitores de sua publicação, acreditamos que não precisamos discutir este fato em muitos detalhes; porém desejamos lembrar a todos do diagnóstico feito por Ward Churchill da patologia do pacifismo, de que ele é delirante, racista e suicida. Além disso, ele afirma que “Com atividades auto-restritas a uma variedade estreita de formas ritualísticas, estrategistas do pacifismo automaticamente sacrificam muito da sua flexibilidade potencial de confrontar o estado; dentro dessa variedade, ações tornam-se inteiramente previsíveis invés de oferecer a utilidade da surpresa. A linha de equilíbrio da força física fica invariavelmente com o estado numa base essencialmente permanente e a possibilidade de transformação social liberal é diminuída correspondentemente a um ponto de inexistência.” Exemplos disso podem ser visto mesmo na história da Guerra Civil Síria. Omar Aziz se auto-descrevia como um anarquista comprometido com a resistência não-violenta. Porém este compromisso apenas resultou na inabilidade do seu movimento de resistir contra a repressão do estado, seus concelhos locais nunca atingindo todo potencial e ele morreu na prisão. Por outro lado, o YPJ/G, que veio de grupos de defesa armada formados em resposta aos protestos de 2004 em Qamişlo (cidade de Al-Qamishli), provou ser a única força na região capaz de resistir à hegemonia estatal e ao fascismo. Métodos pacíficos apenas resultam na manutenção do status quo e/ou a morte para aqueles que os praticam – portanto ou pegue uma arma e junte-se à resistência armada agora ou prepare-se para tal quando o momento chegar.

EiE: Mais abaixo na carta de posicionamento, está escrito que “Acreditamos que a guerra no terceiro mundo já começou e que conflitos na Síria, Ucrânia e outras partes do mundo estão apenas começando. O sistema capitalista, aproximando-se do seu fim e tendo saqueado o mundo e tomado seus recursos, encara sua crise mais aguda até hoje.” Como vocês acham que as coisas vão se desenrolar?

IRPGF: A IRPGF acredita que conflitos, especialmente no sul global, tornar-se-ão cada vez mais complicados, com relações entre agentes estatais e não-estatais transcendendo barreiras ideológicas. Isso já pode ser visto em guerras tanto na Síria como na Ucrânia. Junto disso está o fato de que populações rurais estão (semi)proletarizadas, migrando para cidades já lotadas, como por exemplo na China, a quantidade crescente de favelas levará a levantes e insurreições espontâneas daqueles deixados à margem ou simplesmente excluídos do sistema capitalista. Isso quer dizer que o sistema capitalista por si mesmo é incapaz de incorporar grandes setores da população humana, levando a uma crise de excedente de mão de obra e uma crescente classe de trabalhadores informais. A IRPGF não crê que a suposta futura revolução é um fato historicamente determinada. Na verdade, ela talvez nem mesmo aconteça ou, pelo menos, não da forma que desejamos, Porém, insurreições ocorrerão contra a autoridade e o capital de modo sem precedentes na história. Estaremos lá para nos juntarmos ao povo nas ruas e nas montanhas para combater esses sistemas de opressão e permitir que vizinhanças e comunidades emerjam como entidades livres, autônomas e auto-organizadas. Anarquismo não é uma garantia para o futuro nem nos consideramos missionários de alguma doutrina sagrada. A IRPGF estará lá para lutar e trabalhas nas revoluções sociais ao redor do mundo ao mesmo tempo que mantém certos princípios que vemos como uma pré-condição para uma vida livre. Revoluções e insurreições são bagunçadas, mas estamos prontos para sujar nossas mãos. Você está?

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