Egoísmo como motivação é um erro

Renrits

Renrits Xam, o mais famoso propositor da ética empática e da coletividade.

NOTA: Só usei a imagem do Max Stirner porque ele é um dos três únicos egoístas que conheço de nome. Outra é a Ayn Rand e não tive a mínima coragem de ilustrá-la aqui. O terceiro seria Nietzsche, mas eu já tô cansado do bigodudo. Faz mais sentido usar a imagem do Stirner porque ele está dentro de um âmbito no qual eu ainda posso ter algo a concordar, mas não tem nada especificamente contra Stirner nesse post. É apenas uma crítica ao conceito de egoísmo em geral. FIM DA NOTA!

Até pouco tempo defendi que o ser humano era egoísta em suas motivações e que a solidariedade se dá pela empatia. Eu não posso mais manter tal postura. Posso admitir a existência do indivíduo como unidade de medida, mas não como unidade auto-suficiente, pois eu não consigo entender o ser humano observando-o isoladamente. Nem ao menos posso acreditar que o ser humano seja capaz de se desenvolver enquanto indivíduo fora da coexistência com os semelhantes. Nem mesmo posso acreditar no seu desenvolvimento fora de um meio, qualquer que seja. Não há uma substância “ser humano” que exista sem o que está ao seu redor.

Imagine uma criança feral, ou seja, uma pessoa criada em isolamento do resto da humanidade e, em muitos casos, por animais. Ela não desenvolve capacidades cruciais para o convívio em sociedade e terá dificuldade em ser reintegrada. Até mesmo uma criança criada em orfanato, sem os devidos cuidados, sofrerá de problemas de aprendizado por falta de contato humano para exercer empatia. Se o ser humano pudesse ser compreendido como tal apenas por seus atributos mais individuais, seria esse tipo de ser humano que encontraríamos: uma criança feral. Ou pior. Não tenho motivos para crer que um Kaspar Hauser seja possível e mesmo a versão cinematográfica teve contato humano no cárcere. Alguém crescendo numa escura cela sem contato humano, se por milagre conseguisse se alimentar enquanto bebê, não teria desenvolvimento cerebral suficiente para a sobrevivência.

A ideia de um individualismo extremo se prende à metafísica mais antiga e tradicional. É a ideia de que uma substância pode ser compreendida sem referências as suas características acidentais, ou seja, o que é apenas possível e não necessário. Isso já não é satisfatório quando pensamos apenas na compreensão que temos das coisas, ou seja, em seus conceitos, pior ainda quando pensamos em como as coisas podem ser o que são, pois é virtualmente impossível pensar em algo no mundo que tenha uma constância de atributos essenciais dentro da mesma categoria para ao mesmo tempo ser considerado tudo um único tipo de coisa e um tipo de coisa diferente de todos os outros tipos de coisas. Se pensarmos em ser humano como aquilo que tem dois braços, duas pernas e que pensa, teremos problemas ao nos depararmos com pessoas sem membros ou com deficiências mentais, que com certeza também são seres humanos.

Não devemos nos apegar a métodos ultrapassados de compreensão do mundo, do contrário estaremos entortando nossa compreensão para que caiba dentro de modelos arbitrários. Não há nada no universo que nos obrigue a compreendê-lo de maneira puramente aristotélica ou platônica. Se o fazemos, é por forçação de barra. Se nossos métodos investigativos são insatisfatórios, que sejam modificados ou abandonados. A realidade não se curvará ao observador: que este se curve para melhor enxergá-la.

O espírito iluminista não aceitou que a moral fosse determinada por outra coisa a não ser a razão. Temos Kant dizendo que a motivação não importa desde que a ação seja governada por uma máxima universalizável e que não fosse auto-derrotante. A compaixão não é suficiente, pois pessoas diferentes podem ter reações diferentes dependendo do que lhes compadece. A razão acabou por trair Kant, pois a) a diferença de formulações pode levar a conclusões diferentes sobre as mesmas ações e b) o princípio do imperativo categórico é auto-derrotante, levando à contradição e, portanto, à incapacidade de ação quando isso ocorre. (Se independente da minha motivação eu não devo mentir, não devo mentir para salvar a vida de um inocente, embora eu deva salvar a vida de um inocente não importa a motivação, logo deu tela azul no imperativo categórico.) O imperativo categórico, quando atrelado à motivações, se torna o imperativo hipotético. Se abandonamos a compaixão porque ela defende uma moral não-universalizável baseada na subjetividade de cada um, indo até o fim com o imperativo categórico, nós voltamos à moral subjetiva, pois ele se reduz ao imperativo hipotético, ou seja, os meios mais racionais para chegar ao fim que eu já desejo em princípio.

Ao termo compaixão, prefiro empatia. Empatia é a conexão que temos com os outros através das nossas expressões. Ela não é perfeita justamente porque eu tenho empatia por algumas pessoas em determinadas situações e não a outras pessoas em outras situações. Mas ela ainda é essencial ao desenvolvimento do sujeito. É através da empatia que eu aprendo a agir e sentir. Eu posso não ter conexão direta com toda humanidade, mas tenho conexão com alguém. Indiretamente, tenho conexão com toda humanidade. Não vou tão longe ao ponto de dizer que toda humanidade é um organismo vivo (embora pudesse), mas quero dizer que não posso compreender uma unidade isolada do resto. Numa analogia biológica, consideremos o cérebro ou a mente essa unidade. Nós temos a impressão que o cérebro é a última categoria que podemos antes que o ser humano deixe de existir. Daí para frente, são hemisférios cerebrais, os lobos cerebrais e as células. O cérebro inteiro é uma mente humana, mas os pedacinhos separados não são. Isso traz dois problemas. Primeiro, não temos certeza da unidade do Eu. A consciência pode ser o conjunto das várias funções cerebrais criando a ilusão de um indivíduo indivisível. Casos de pessoas que sofrem calosotomia, ou seja, cirurgia para separar os hemisférios cerebrais, nos fazem considerar a possibilidade do cérebro conter ao menos duas mentes independentes uma da outra. O segundo problema é que, embora nós possamos continuar avançando em nível de especificidade, separando partes do cérebro umas das outras, assim como células umas das outras, elas isoladas não sobrevivem, assim como sujeitos isolados também não sobrevivem. Só fazendo parte de um todo a parte sobrevive.

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