Jovens conservadores e valores vigentes

hqdefaultTítulo original: Da orientação de jovens e dos valores enquanto vigência e heterodoxia

Jovens conservadores parecem estranhos, mas na verdade, há uma explicação para que eles existam. Jovens querem aceitação. Eles querem estar certos. Se eles defenderem normas vigentes ou ao menos defendidas por aqueles em posição de autoridade, então garantem para si o sentimento da certeza. Na essência, não é diferente da motivação para jovens progressistas ou rebeldes. Estes querem entender por que as coisas em vigência não funcionam como deveriam e escolhem defender a mudança. No fim das contas, são duas formas de lidar com a frustração: o rebelde combate o motivo da frustração, enquanto o conservador busca um meio de evitá-la, se alinhando ao lado do mais forte.

 

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Enquanto os rebeldes que buscam nos jovens novos quadros são vistos como corruptores da juventude, os conservadores também buscam jovens quadros, mas isto é visto como normal, pois o conservadorismo é a norma dos valores na sociedade. O conservadorismo pode ser ensinado tranquilamente nas escolas, porém, como vemos hoje, até mesmo a menção da rebeldia na sala de aula é motivo de medo. Verdade seja dita, eu tive a sorte de entrar em contato com conteúdos “heterodoxos” na minha escola sem que alguém chiasse, embora tais conteúdos tenham sido dados en passant e de forma não muito fiel aos fatos. Verdade seja dita novamente, muita coisa “ortodoxa” também me foi ensinada de forma pouco fidedigna. Mas foi outra época. De qualquer forma, a diferença entre uma opinião favorável à orientação de jovens para a rebeldia ou o conservadorismo é puro relativismo. A maioria aprovará a reprodução dos valores que a maioria aprova. Isso até que algum impacto ocorra para mudar as estatísticas, mas não mudará o princípio de retroalimentação da maioria.

Por que buscamos jovens, afinal? Os conservadores dirão que nós, rebeldes, somos vis oportunistas e que eles buscam os jovens porque são detentores da verdade e boas intenções. Nós poderíamos inverter o argumento, porém não contaríamos com a maioria para nos apoiar. Deveríamos, porém, nivelar o campo e declarar o porquê de ambos os lados fazerem isso, afinal os motivos são os mesmos. Jovens são impressionáveis? Sim, buscam respostas, estão ainda por se decidir. Melhor dizendo, ainda estão em processo de formação intelectual e a curiosidade é simplesmente reflexo disso. Assim como ensinamos aos jovens conhecimento escolar e profissional, o jovem vai ser alvo de orientação política. Como consequência, o jovem demonstrará empolgação pelo conhecimento que recebe e, junto com a energia física que possui (quem passa dos trinta sabe como é frustrante a diminuição das forças para se fazer o que deseja), se dedica com afinco à causa que defende. Portanto, que se deixe de ver como corrupção da juventude a orientação à rebeldia per se, pois se simplesmente educar jovens para algum fim é vil oportunismo, toda sociedade é culpada disso, desde a família, passando pela escola, até as classes mandatárias. Uma orientação oportunista pode ocorrer em quaisquer dos campos.

O per se do parágrafo anterior é importante para que não digam que defendo que se forme qualquer tipo de rebelde. Só o fato de uma postura ser rebelde não basta para que se condene alguém. Não estou afirmando nada mais que isso.

Mas o jovem não é tão diferente do adulto. Com parado com o último, o primeiro é ele, porém com potencialidades amplificadas e é de se esperar que a realização dessas potencialidades seja também amplificada em efeito. Se o jovem é impressionável, não se engane, o adulto também é. Se o jovem tem ânsia, o   adulto também tem. O medo ou a raiva da frustração do jovem o adulto também possui e isso é visto na sua aceitação ou rejeição da maioria e seus valores. Cada postura política ou ética tem seu conjunto de argumentos que, em geral, são muito plausíveis e consistentes, mas não raro conflitantes ou mesmo incompatíveis entre uma postura e outra. O que justifica então a existência dessa variedade de posturas que variam de nível de conciliabilidade até a exclusão mútua? Para que servem todos esses argumentos discordantes entre si se o fato é uma coisa só, seja ele o que for? Onde está a verdade?

O homem é escravo das paixões. São os valores que ele já possui que guiarão seus argumentos. Sim, a sua postura é questão de opinião. Ele vai escolher onde chegar a partir de onde sai. A razão é mero instrumento para calcular as relações entre as coisas, para escolher os melhores meios e prever as consequências de uma busca por determinados fins. Ela pode até causar uma mudança de opinião. Mas é essa opinião que vai guiar suas escolhas dali em diante. A mudança da opinião trazida pela razão vai depender do agrado que ela lhe traz.

Exemplo: se o sujeito crê que a desigualdade é necessária para a sobrevivência da humanidade, o raciocínio pode lhe mostrar que vários meios alinhados a tal valor não funcionam, mas ele simplesmente vai continuar procurando novos meios para fazer funcionar as coisas de acordo com o valor que lhe agrada. A não ser que a razão lhe aponte um novo valor que lhe agrade mais do que o que já tinha, ele não vai mudar de postura. A pessoa convicta não muda de lado só pelos argumentos da oposição, pois a oposição não defende os valores que lhe agradam. Se uma pessoa almeja o poder sobre os outros, argumentar em favor da plausibilidade de uma sociedade anarco-comunista não vai transformá-la numa anarco-comunista. Na pior das hipóteses, vai fazer dela a maior inimiga possível do anarco-comunismo, pois o sucesso desse modelo de sociedade significa o fim de tudo que ela valoriza.

 

 

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