Por que anti-autoritários são diagnosticados como mentalmente doentes

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Por Bruce Levine, psicólogo e ativista americano, em 26 de fevereiro de 2012. Clique aqui para o original em inglês.

 

 

Na minha carreira como psicólogo, conversei com centenas de pessoas previamente diagnosticadas por outros profissionais como sofrendo de transtorno desafiador de oposição, transtorno de deficit de atenção e hiperatividade, transtorno de ansiedade e outras doenças psiquiátricas, e eu me impressiono com (1) quanto desses diagnosticados são essencialmente anti-autoritários e (2) como os profissionais que os diagnosticaram não são.

Anti-autoritários questionam se uma autoridade é legítima antes de levarem tal autoridade a sério. Avaliar a legitimidade de autoridades inclui aferir se tais autoridades realmente sabem do que estão falando ou não, se são honestas e se importam com as pessoas que respeitam tal autoridade. E quando anti-autoritários determinam que tais autoridades são ilegítimas, desafiam e resistem a essa autoridade – algumas vezes agressivamente e outras passiva-agressivamente, algumas vezes sabiamente e outras não.

Alguns ativistas lamentam quão poucos anti-autoritários parecem haver nos Estados Unidos. Uma razão pode ser que tantos anti-autoritários naturais são hoje psicopatologizados e medicados antes que alcancem consciência política das autoridades mais opressivas na sociedade.

Por que profissionais da saúde mental diagnosticam anti-autoritários como sofrendo de doenças mentais

Ser aceito no curso de graduação ou no curso de medicina e alcançar doutorado ou mestrado e tornar-se psicólogo ou psiquiatra significa entrar nos esquemas, os quais requerem bastante obediência comportamental e de atenção a autoridades, até mesmo aquelas às quais não se tem respeito. A seleção e socialização de profissionais da saúde mental tende a excluir muitos anti-autoritários. Tendo trilhado o terreno da educação superior por uma década de minha vida, sei que diplomas e credenciais são primariamente distintivos de obediência. Aqueles com pós-graduação viveram por muitos anos num mundo no qual conforma-se rotineiramente com as exigências das autoridades. Logo, para muitos doutores e mestres, pessoas diferentes deles, que rejeitam tal obediência comportamental e atentiva parecem ser de outro mundo – um mundo diagnosticável.

Tenho visto que muitos psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da saúde mental são não apenas extraordinariamente obedientes às autoridades, mas também ignorantes da magnitude de sua obediência. E também ficou claro para mim que o anti-autoritarismo dos seus pacientes cria enorme ansiedade para tais profissionais e que sua ansiedade é combustível para diagnósticos e tratamentos.

No curso de graduação, descobri que tudo que é preciso para ser rotulado como tendo “problemas com autoridade” era não puxar o saco de um diretor de treinamento clínico cuja personalidade era uma combinação de Donald Trump, Newt Gingrich e Howard Cosell. Quando algum acadêmico me disse que tinha “problemas com autoridade”, tive sentimentos contraditórios por ser tachado de tal forma. Por um lado, achei engraçado, pois junto os rapazes da classe trabalhadora com quem cresci, eu era considerado relativamente obediente a autoridades. Afinal, I fazia meu trabalho de casa, estudava e tirava boas notas. Porém, enquanto meu novo rótulo de “problemas com autoridade” me fazia rir, pois agora eu era visto como um “bad boy”, também me preocupava com em que tipo de profissão eu tinha entrado. Especificamente, se alguém como eu tinha sido rotulado como tendo “problemas com autoridade”, de que chamariam os garotos com quem cresci, que prestavam atenção a várias coisas que lhes interessavam, mas não se importavam o suficiente com a escola para obedecer lá? Bem, a resposta se tornou clara em breve.

Diagnósticos de doença mental para anti-autoritários

Um artigo da Psychiatric Times de 2009 intitulado “TDDAH e TDO: Confrontando os desafios do comportamento disruptivo” relata que “transtornos disruptivos”, que incluem transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDDAH) e transtorno desafiador de oposição (TDO), são os problemas de saúde mentais mais comuns em crianças e adolescentes. TDDAH é definida por atenção pobre e distração, auto controle pobre e impulsividade, e hiperatividade. TDO é definida como um “padrão de comportamento negativo, hostil e desafiador sem as violações mais sérias dos direitos básicos de outros que são vistos no transtorno de conduta”; e os sintomas de TDO incluem “geralmente desafiam ativamente ou recusam-se a obedecer pedidos ou regras de adultos” e “geralmente discutem com adultos”.

Psicólogo Russel Barkley, uma das principais autoridades mainstream em TDDAH, diz que aqueles afligidos com TDDAH têm deficits no que ele chama “comportamento governado por regras”, já que são menos responsivos a regras das autoridades estabelecidas e menos sensíveis a consequências positivas ou negativas. Jovens com TDO, de acordo com autoridades mainstream da saúde mental, também possuem tais ditos deficits em comportamento governado por regras e portanto é extremamente comum para jovens terem o duplo diagnóstico de TDDAH e TDO.

Queremos mesmo diagnosticar e medicar todos com “deficits em comportamento governado por regras”?

Albert Einstein, quando jovem, provavelmente teria recebido um diagnóstico de TDDAH e talvez de TDO também. Albert não prestava atenção a seus professores, reprovou duas vezes no exame de admissão universitário e tinha dificuldade em manter trabalhos. Porém, o biógrafo de Einstein Ronal Clark (Einstein: The Life and Times) avalia que os problemas de Albert não vinham de deficit de atenção mas de seu ódio pela disciplina prussiana autoritária em suas escolas. Einstein dizia, “Os professores no primário pareciam a mim como sargentos e os do ginásio, tenentes.” Aos 13 anos, Einstein lia a difícil Crítica da Razão Pura de Kant – porque se interessava por ela. Clark também nos conta que Einstein recusou-se a se preparar para os testes de admissão universitária como uma rebelião contra o caminho insuportável de seu pai numa “profissão prática”. Após entrar para a universidade, um professor disse a Einstein, “Você tem um defeito: não se pode dar ordens a você.” Justamente as características de Einstein que tanto aborreciam autoridades eram exatamente aquelas que permitiram sua excelência.

Nos padrões de hoje, Saul Alinsky, organizador lendário e autor de Reveille for Radicals e Regras para Radicais, certamente teria sido diagnosticado com um ou mais transtorno disruptivo. Lembrando-se de sua infância, Alinsky disse, “Eu nunca pensei em andar sobre a grama até que vi uma placa dizendo ‘Fique longe da grama’. Então eu pisava nela toda.” Alinsky também lembra da vez quando tinha 10 ou 11 anos e seu rabino o ensinava hebraico:

Num dia em particular eu li três páginas seguidas sem nenhum erro de pronúncia e, de repente, uma moeda caiu sobre a bíblia… No dia seguinte o rabino chegou e me mandou ler. E eu não lia; apenas fiquei sentado lá em silêncio, me recusando a ler. Ele me perguntou porque estava tão quieto e eu disse. “Dessa vez é uma prata ou nada”. Ele levantou os braços e me jogou através da sala.

Muitas pessoas com ansiedade e/ou depressão severa também são anti-autoritários. Geralmente uma das dores principais de suas vidas que alimenta sua ansiedade e/ou depressão é o medo de que seu desprezo por autoridades ilegítimas cause que sejam marginalizados financeira e socialmente; mas temem que a obediência a tais autoridades ilegítimas causem sua morte existencial.

Passei muito tempo com pessoas que durante um momento em suas vidas tiveram pensamentos e comportamentos tão bizarros que se tornaram extremamente assustadores para seus familiares e até mesmo para si mesmos; eram diagnosticados com esquizofrenia e outras psicoses, mas se recuperaram completamente e têm por muitos anos levado vidas produtivas. Nessa população, não encontrei uma pessoa que não considerasse uma intensa anti-autoritária. Uma vez recuperados, eles aprenderam a canalizar seu anti-autoritarismo para fins políticos mais construtivos, incluindo a reforma do tratamento da saúde mental.

Muitos anti-autoritários que antes foram diagnosticados com doença mental me dizem que conforme eram rotulados com um diagnóstico psiquiátrico, entravam num dilema. Autoritários, por definição, demandam obediência inquestionável, e qualquer resistência a seu diagnóstico e tratamento criavam enorme ansiedade para profissionais autoritários da saúde mental; e profissionais, sentindo-se fora de controle, os rotulavam de “incompatíveis com o tratamento”, aumentando a severidade de seu diagnóstico, e aumentando suas medicações. Isso enfurecia tais anti-autoritários, às vezes ao ponto de reagirem de formas que pareciam ainda mais assustadores a seus familiares.

Há anti-autoritários que usam drogas psiquiátricas para ajudar suas funções, mas geralmente rejeitam as explicações de autoridades psiquiátricas para suas dificuldades de funcionamento. Então, por exemplo, eles podem tomar Adderall (uma anfetamina prescrita para TDDAH), mas sabem que seu problema de atenção não é resultado de desequilíbrio bioquímico no cérebro, mas causado por seu emprego tedioso. E similarmente, muitos anti-autoritários em ambientes altamente estressantes ocasionalmente tomarão benzodiazepinas como Xanax, apesar de acreditarem que seria mais seguro usar ocasionalmente maconha, mas não podem por causa de exames toxicológicos em seus empregos.

Em minha experiência, muitos anti-autoritários rotulados com diagnósticos psiquiátricos geralmente não rejeitam todas as autoridades, simplesmente aquelas que avaliaram como ilegítimas, como calham de ser várias das autoridades na sociedade.

Mantendo o status quo da sociedade

Americanos tem sido cada vez mais socializados a igualar inatenção, raiva, ansiedade e desespero paralisador com condições médicas e buscar tratamento médico em vez de remédios políticos. Que melhor forma de manter o status quo do que ver inatenção, raiva, ansiedade e depressão como problemas bioquímicos dos doentes mentais do que reações normais a uma sociedade cada vez mais autoritária.

A realidade é que depressão é altamente associada com problemas financiais e sociais. Alguém é mais propensa a estar deprimida se está desempregada, subempregada, sob assistência pública ou devendo (para documentação, veja 400% Rise in Anti-Depressant Pill Use). E crianças rotuladas com TDDAH são capazes de prestar atenção quando são pagas ou quando a atividade é uma novidade, as interessam ou é escolhida por elas mesmas (documentado em meu livro Commonsense Rebellion).

Numa idade das trevas prévia, monarquias autoritárias se juntavam a instituições religiosas autoritárias. Quando o mundo saiu de tal idade das trevas e entraram no Iluminismo, houve um surto de energia. Muito dessa revitalização teve a ver com se arriscar ao ceticismo sobre instituições autoritárias e corruptas e recobrar confiança na própria mente. Estamos agora numa outra idade das trevas, apenas as instituições mudaram. Americanos desesperadamente precisam de anti-autoritários para questionar, desafiar e resistir a novas autoridades ilegítimas e recobrar confiança no seu próprio senso comum.

Em cada geração haverá autoritários e anti-autoritários. Embora seja inusitado na história americana que anti-autoritários tomem iniciativa do tipo de ação eficiente que inspire outros a se revoltarem com sucesso, vez ou outra um Tom Paine, Crazy Horse ou Malcolm X surge. Portanto autoritários marginalizam financeiramente aqueles que resistem ao sistema, criminalizam anti-autoritários, psicopatologizam anti-autoritários e vendem drogas para sua “cura”.

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