Mania de mercado

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Mercado. Literalmente, um mercado.

Uns dias atrás, um amigo me falou de quando discutia com ultraliberais. Eles, segundo meu amigo, não conseguem ver nada a não ser como uma forma de interação mercadológica. Meu amigo é cristão e usou o exemplo da morte de Cristo como algo que ele teria feito de graça, ou seja, sem querer nada em troca. Os ultraliberais não aceitam tal explicação, defendendo que Jesus teria comprado a salvação da humanidade através de seu sacrifício. Segundo os caras, nenhum ato é gratuito. Dessa forma, meu amigo resolveu abandonar o argumento sagrado e mergulhou no profano, dizendo que se ele cagar, a cagada é gratuita. 😀 Os caras não aceitaram. Disseram que cagar é uma troca consigo mesmo. Você, ao sentar no troninho por uns segundos e fazer uma forcinha, compra alívio. Tudo, portanto, seria comércio. 

Acho esse discurso bobo. Toda ação intencional busca um fim, portanto segundo eles, nos estamos sempre comprando fins através de meios.  Eles simplesmente trocam termos. Em vez de dizerem ações, eles dizem mercado. Então tudo vira mercado. E o que não é mercado? Nada. Então qual diferença faz? Mercado vira um termo vazio.

Isso é, claro, uma forma de tentar legitimar uma economia de mercado (livre mercado, para ser mais exato). É como se eu dissesse que a vida é uma guerra, logo estou legitimado a tratar todos como inimigos. Só que assim, diz-se que a vida é mercado, logo vão agir sempre tendo em vista a vantagem própria em todas as relações. É uma forma de inversão: primeiro temos a vida e depois temos as coisas que criamos dentro da vida, como o mercado e a guerra. Então eu digo que a vida é mercado e passo a tratar todos os aspectos da vida comercialmente, ou digo que a vida e guerra e acho OK ser escroto com todo mundo, como se mercado ou guerra viesse antes de tudo que compõe a vida.

Seria tudo apenas uma tolice, se não fosse o tipo de coisa que intelectuais fizeram durante toda história para justificar práticas questionáveis, como a escravidão, o absolutismo, o colonialismo, a injustiça social, etc. Sabem aquela do Murray Rothbard, defendendo que venda de bebês (ou venda de tutelas de bebês, o que dá no mesmo) deveria ser permitida, pois já é permitido adotar bebês, que seria equivalente a comprar bebês por preço zero? Pois bem, é um exemplo do que se diz quando se aceita que a vida pode ser reduzida a mercado.

Se você acredita que a vida é mercado e guerra ao mesmo tempo, você chega ao reino do livre mercado que não dá satisfação alguma ao povo: o crime organizado. É o capitalismo levado ao limite máximo.

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