O dilema da autonomia

i_kant

Sorry, but I Kant…

A galera kantiana segue a ideia de que liberdade precisa de racionalidade. Ou seja, gente burra não é livre. Quem cede aos desejos com facilidade ou não calcula os meios mais apropriados a seus fins não é considerado livre por eles. Me vem uma imagem de um sujeito muito diligente e observador dos seus deveres como o mais livre. Também me vem a mente a implicação de que não importa a posição de alguém na sociedade para considerá-lo livre. Logo quem tem mais poderes e privilégios não é necessariamente mais livre que aquele na base da pirâmide. Muito estranho isso.

Podem, portanto, mandar o argumento da Espada de Dâmocles para defender que a irresponsabilidade para com os poderes traz graves consequências. Um rei seria então até menos livre do que um plebeu – ou talvez tão livre quanto, pois a razão entre responsabilidade e consequência se mantém apesar das proporções maiores. Tremenda demagogia, pois a Espada de Dâmocles não está sobre a cabeça do rei, mas sobre a dos súditos. Quando a cabeça do rei cai, não é a dele a primeira cabeça que rolou. Pode parecer apenas o problema da proporção, mas a cabeça do rei não rola tão fácil assim. Há muito mais coisas nessa proporcionalidade, especificamente a proporcionalidade do poder. Pobre não tem forças armadas ao seu dispor, mas o rei, sim.

É curioso como essa visão liberal da liberdade é semelhante à visão religiosa. O homem é realmente livre enquanto age dentro da vontade do deus e como o deus é a fonte da razão, o homem livre é o homem racional. Preciso dizer que Kant tentou, com sua Filosofia Transcendental, sintonizar o espírito do iluminismo com Deus para nos “salvar” do ateísmo? Tá lá no prefácio da segunda edição da Crítica da Razão Pura.

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