Há algum motivo para eu continuar a ler Hakim Bey?

Tô lendo Zonas Autônomas Temporárias do Hakim Bey, ainda no início do 4º capítulo, só que não sei se vale a pena continuar. Minha reação ao que já li se resume basicamente a isso: Não, não não!…

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Mais legal se fosse o Alan Moore…

Depois do resumo, elaboremos.

Hakim Bey propõe abandonar a ideia de revolução para criarmos meios espontâneos e temporários de rebelião para aproveitarmos a anarquia já no tempo presente, em levantes contra a “Simulação” da “sociedade do espetáculo”. E para isso, ele usa como exemplos várias metáforas de xamanismo, paganismo e tribalismo, assim como festas e a internet. Talvez seja melhor e mais rápido fazer uma contra-argumentação listada em pontos.

•A ideia principal do liberalismo é permitir que as pessoas, em seu foro privado, sozinhas ou em grupos de afinidade, exerçam liberdade de estilo de vida sem interferência externa. Uma celebração contracultural é insuficiente para promover o anarquismo, pois não só é muito bem aceita pelo status quo liberal como é a expressão máxima do liberalismo.

•Não só o extravaso ocasional é benéfico para a ordem vigente, como em várias culturas existem institucionalmente o carnaval ou festival análogo para que várias regras sejam quebradas num período determinado do ano de modo a manter o resto do ano controlável.

•Extravasos e eventos contraculturais são luxos inacessíveis para a camada mais espoliada da população. Vida diletante e contemplativa é para aqueles que não precisam se preocupar com o almoço do dia seguinte. Na antiguidade, tal tipo de vida só foi possível através da escravidão de outros. Hoje, ela depende da escravidão assalariada.

•Um levante que culmine em violência, mas não resulte em revolução, só pode ser aproveitado como maneira de extravaso por populações privilegiadas. Minorias raciais e pobres, quando se rebelam, são reprimidos de forma esmagadora. O leitor pode comparar quebradeira após partida esportiva por brancos de classe média nos EUA com manifestações negras de periferia no mesmo país.

•Experimentos comunais de hippies falharam. Não porque duraram pouco, já que o autor propõe justamente que os levantes durem pouco, mas porque falharam nas suas pretensões de funcionamento. A liberdade e a igualdade se transformaram em panelinhas e bullying. O fim das comunas não foi trazido por pressão externa do estado ou da sociedade do espetáculo, mas por implosão. Os modelos anarquistas baseados em idealismo (a crença de que a verdade e a natureza das coisas transcende o nosso mundo, como existindo num mundo das ideias perfeitas) falharam.

•O autor se empolgou com a expansão da internet, mas não foi capaz de prever seu desdobramento. A liberdade na rede é paga com a commoditização dos usuários, que criam conteúdo gratuito para que empresas lucrem em cima dele, vigilância e venda de dados pessoais. A pirataria está longe de ser um ato de rebelião, mas um aspecto comum e inevitável no mercado da informática. Grandes empresas encaram a pirataria como meio de introdução de produtos em novos mercados e de fidelização do consumidor à marca, enquanto distribuidores de pirataria na rede circulam capital através de publicidade. A “contra-web”, que deveria promover anarquia, tem promovido muito mais fascismo e sociopatias em geral, com grupos de ódio e pedófilos. Aqueles capazes de atos reais de rebelião contra o status quo são uma minoria  com conhecimento de programação e redes – se isso é anarquismo, é anarquismo de elite.

•A ideia de um anarquismo de aprimoramento espiritual me parece levar à epifania de que o mundo do jeito que está é bom o suficiente, bastando encontrar a felicidade dentro de si mesmo. Isso não é anarquismo, é no máximo religião e no mínimo, auto-ajuda. Como tal, resulta em conformismo.

•O apelo primitivista faz parecer que religiões primitivas não são predecessoras das instituições religiosas que funcionam como controle social e político, fazendo isso há mais tempo do que mesmo o estado. Falar de paganismo é bonitinho, mas se oferecer como sacrifício para os deuses da floresta, ninguém quer, né?

Me digam por favor se há motivos para continuar lendo Hakim Bey, pois acho que estou perdendo meu tempo. Hakim Bey se assemelha muito ao Caetano Veloso quando não está cantando, só que o Caetano é mais honesto, já que admite gostar do capitalismo.

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