A luta revolucionária é legítima defesa

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Tanto os mais pobres como os mais ricos são movidos por senso de autopreservação. A base exige igualdade porque está em posição de desvantagem, enquanto a elite defende a desigualdade porque não quer perder o que tem. Só que a base está numa luta por sobrevivência e dignidade e a elite sobreviveria muito bem apenas com uma parcela do que hoje tem.

Mas tudo bem. Não há céu ou inferno. Não há uma moral objetiva no universo. Se você não tem compaixão pelos outros, em princípio, não vai perder nada sendo um escroto – em princípio! Embora não exista uma moral objetiva, interesse pessoal e solidariedade ainda existem. Eu acredito que, mesmo sem uma lei moral regendo o universo, ainda há uma ética que guia as relações interpessoais de acordo com a quantidade de bem que se possa gerar (ou de sofrimento que se possa diminuir). A partir disso, podemos pensar numa comunidade ética, ou seja, pessoas unidas por laços de interesse mútuo pelo bem-estar. Eu quero ser feliz e não quero ver você infeliz. Você tem a mesma postura. Logo nós  respeitamos e ajudamos um ao outro. É certo que tendemos a priorizar aqueles com os quais temos laços pessoais, mas buscamos incluir toda humanidade na medida do possível.

Só que nem todos desejarão fazer parte da mesma comunidade ética. Não só algumas pessoas vão ignorar nosso sofrimento, como poderão ativamente provocar e mantê-lo. Certamente invocarão N motivos para serem os mais egoístas possível: a natureza das coisas, meritocracia, manutenção da ordem pública, leis ou simplesmente desinteresse. A conclusão é sempre uma: o nosso prejuízo é uma necessidade para a prosperidade de tais pessoas, considerando que a mudança necessária para nossa dignidade envolve em uma redistribuição de recursos.

Então vem a questão chave: se uma pessoa se recusa a fazer parte da mesma comunidade ética que nós (se recusa a uma relação recíproca de busca do bem-estar), por que devemos lhe dar os benefícios que damos aos membros da nossa comunidade ética? O privilégio da pessoa implica no nosso prejuízo e de nossos pares, logo não devemos nenhuma forma de respeito a essa pessoa. Não temos obrigações éticas para com essa pessoa e é apenas racional que ativamente hajamos contra ela como forma de cessar o prejuízo que ela nos causa. Não devemos nos preocupar com a ordem pública, pois a ordem pública existe contra nós. Não devemos contemplar as leis, pois o contrato social não nos contempla. Não devemos clemência, pois não a recebemos. Só não devemos exceder o necessário para nossa segurança e dignidade. Não devemos matar quem não ameaça nossas vidas. Não devemos torturar, pois nada tiramos disso. De fato, se laços de ética são cortados, poderíamos até nos exceder, mas nos tornaríamos vis, menos compassivos e isso é uma perda séria. Também não devemos gerar mais ressentimento do que o necessário, pois ressentimento fomenta vingança.

Alguns devem perceber que aqui defendo uma forma de utilitarismo e isso pode desagradar a alguns. Utilitarismo é um pensamento tipicamente positivista e burocrático, mas acredito que há como evitar as piores implicações do utilitarismo. Basta ficarmos sempre atentos para a impossibilidade de se quantificar bem-estar e sofrimento. É impossível saber a equivalência entre o que damos e o que tiramos. É impossível prever com 100% de certeza as consequências de nossas ações. As relações humanas e seus resultados são um sistema caótico: independente de quantos dados você tenha, sempre faltarão variáveis para uma análise fidedigna. Devemos agir sempre com a máxima consideração e a menor prepotência possível. A húbris da elite, mesmo quando pensa estar fazendo o melhor para todos, nos vitimiza, pois une seu poder econômico e político à pura irresponsabilidade. Daí surgem as recessões, as guerras e as opressões.

Em resumo, a luta revolucionária é um ato de legítima defesa.

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