Egoísmo e altruísmo

Eu acredito na noção de que somos todos egoístas. E eu acredito também em altruísmo. Como pode ser?

Egoísmo significa que tudo que faço, faço pela satisfação pessoal. Quando faço bem a alguém, é porque eu tiro satisfação do meu ato. Altruísmo significa que eu me sacrifico de alguma forma para fazer o bem aos outros. Eu perco dinheiro, tempo e possivelmente até a vida pelo bem alheio. Como pode ser, então, que eu faça o bem por satisfação pessoal enquanto morro no processo? Mortos não sentem satisfação. E mesmo que eu não morra, como posso me sentir satisfeito quando o sacrifício, ao menos em tese, pesaria mais do que a satisfação?

Porque eu tenho em minha mente uma concepção de mundo que não aceita ser diferente e eu ultrapasso os limites da minha segurança para proteger essa realidade como a vejo. Se eu morro por alguém, isso quer dizer que eu não gostaria de viver num mundo onde esse alguém não existe mais. Minha concepção de realidade inclui essa pessoa e sem ela, meu mundo fica incompleto. E se a pessoa que eu salvo é uma completa desconhecida? Se eu entro no caminho de uma bala para salvar uma criança desconhecida? É porque minha concepção de mundo não comporta a tragédia que seria a morte ou o sofrimento daquela criança. Assim como um morto não sente satisfação, um morto não sofre com seu mundo despedaçado.

Quando alguém tenta explicar isto de forma mecanicista, afirmando que seguimos a vontade dos nossos genes ou memes, eu me irrito, pois tal cientificismo inverte a lógica da causação. Não vivemos para espalhar nossos genes, mas espalhamos nossos genes porque vivemos da forma como vivemos. A natureza, o objeto de estudo da ciência, não tem uma razão de ser ou um objetivo. A natureza simplesmente acontece. Quando dizem que determinado comportamento existe porque tem a função de melhor preservar a espécie, isso é um erro. O comportamento não é consequência da necessidade da preservação da espécie, mas o contrário: a espécie é preservada porque tal comportamento existe em primeiro lugar. Do contrário, ninguém poderia cometer atitude contra a própria espécie. Embora essa inversão lógica seja muito usada para defender direitos humanos, como por exemplo o direito dos homossexuais, ela acaba também defendendo a guerra como tendo uma função para a preservação da espécie, agindo como parte da seleção natural, descartando espécimes excedentes. Isso é uma bobagem. Repito: a natureza é aleatória e nada que acontece nela tem uma função ou objetivo, pois a natureza não tem consciência. Esse cientificismo pode acabar resultando naquilo que seus defensores menos desejam: acabaremos por louvar a natureza como um deus onisciente, pois é encarada como o motor primeiro que a tudo dá propósito.

A ciência é o que é. Cientificismo é o simulacro da ciência, usado quando a ciência é insuficiente para satisfazer o cientificista. Mas a ciência não tem a mínima obrigação de satisfazer ninguém. Quem ama a ciência não deveria distorcê-la. Distorção é o pior tipo de egoísmo, pois tenta forçar o mundo à sua concepção pessoal. É o contrário do altruísmo: é o sacrifício do mundo em função do desejo individual.

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