Pequenas notas sobre um mundo que talvez não valha a pena.

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Stan Lee é filósofo e você nem sabia.

 

•Clarice Falcão faz um clipe com pau, cu e buceta no país do carnaval, das panicats, dos leopardos, etc. e meio século depois da liberação sexual, no mundo da pornografia grátis sem fronteiras. E o mundo das pessoas cai.

•Uma loja de móveis faz campanha verbalmente ofensiva contra as mulheres e usa fotos de mulher nua na campanha. As pessoas defendem a loja em nome da liberdade de expressão. Porque  liberdade de expressão é falar merda sem que te critiquem. Grandes poderes não trazem grandes responsabilidades. Entendi. Alguém me passa uma 12 para eu estourar minha cabeça, por favor?

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“Adeus, menininha ruiva…”

•Escrevi um artigo perguntando se há motivos para eu continuar lendo Hakim Bey. Eu sei que conheço gente que curte Hakim Bey, mas ninguém me ofereceu argumentos para continuar a leitura. Cara, nem meus amigos lêem o que eu escrevo!? 😦

•Eu milito junto a anarco-individualista ou anarquista de estilo de vida tranquilamente se sua postura não inviabilizar a construção de um movimento anarquista de cunho social. Se o cara quiser experimentar dos “momentos de anarquia já no presente” que Hakim Bey defende, tudo bem, desde que ele se comprometa com um projeto social sólido e esteja disposto a compor organizadamente conosco.

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Socialismo enquanto utopia

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“Vamos ter que trocar o nome da Internacional para Intergalática, camarada!”

Quero aqui examinar o argumento de que o socialismo seria uma utopia, no sentido de uma realidade difícil ou até impossível de se realizar. Vou considerar aqui apenas socialismo (seja marxismo ou anarquismo) e o capitalismo na forma liberal. Nada de social-democracia aqui, pois quando não há riqueza suficiente para ela, ela se torna liberalismo e nada mais.

O pobre é insatisfeito com a realidade, pois nela, ele é carente. Logo é do interesse do pobre defender o socialismo, que defende uma nova realidade onde ele não será carente. Liberalismo/capitalismo não é, aparentemente, do interesse do pobre, pois ele quer algo diferente da realidade em que vive.

Alguém pode se opor ao parágrafo anterior. Se o socialismo defende uma utopia, então não é do interesse do pobre defender o impossível. Muito mais útil ao pobre seria a compreensão e aceitação da realidade na qual ele vive, ou seja, o liberalismo/capitalismo.

Mas isso traz um problema: se é mais útil para o pobre aceitar a realidade em que vive justamente por ser a realidade (o grifo é importante),  isso significa que em qualquer outra realidade que fosse, ele deveria aceitá-la. Se ele fosse um súdito de um rei absolutista, ele deveria aceitar. Se ele fosse um escravo, ele deveria aceitar. Até mesmo se a realidade fosse o socialismo, ele deveria aceitar. Mesmo que seja aceitar não só por se resignar em sua desgraça, mas como condição para ascender dentro dessa realidade. Essa defesa do liberalismo/capitalismo é então conservadorismo por conservadorismo, mais exatamente falando, reacionarismo.

Isso não é suficiente para demonstrar que o socialismo é a resposta aos anseios do pobre, até porque não diz por que raios ele deveria defender uma utopia ou o porquê do socialismo não ser uma utopia. Não é isso que eu queria ver aqui. O objetivo era só examinar essa implicação do argumento. Desapontado? Toma aqui um biscoito.

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Dois, até.

 

O dilema da autonomia

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Sorry, but I Kant…

A galera kantiana segue a ideia de que liberdade precisa de racionalidade. Ou seja, gente burra não é livre. Quem cede aos desejos com facilidade ou não calcula os meios mais apropriados a seus fins não é considerado livre por eles. Me vem uma imagem de um sujeito muito diligente e observador dos seus deveres como o mais livre. Também me vem a mente a implicação de que não importa a posição de alguém na sociedade para considerá-lo livre. Logo quem tem mais poderes e privilégios não é necessariamente mais livre que aquele na base da pirâmide. Muito estranho isso.

Podem, portanto, mandar o argumento da Espada de Dâmocles para defender que a irresponsabilidade para com os poderes traz graves consequências. Um rei seria então até menos livre do que um plebeu – ou talvez tão livre quanto, pois a razão entre responsabilidade e consequência se mantém apesar das proporções maiores. Tremenda demagogia, pois a Espada de Dâmocles não está sobre a cabeça do rei, mas sobre a dos súditos. Quando a cabeça do rei cai, não é a dele a primeira cabeça que rolou. Pode parecer apenas o problema da proporção, mas a cabeça do rei não rola tão fácil assim. Há muito mais coisas nessa proporcionalidade, especificamente a proporcionalidade do poder. Pobre não tem forças armadas ao seu dispor, mas o rei, sim.

É curioso como essa visão liberal da liberdade é semelhante à visão religiosa. O homem é realmente livre enquanto age dentro da vontade do deus e como o deus é a fonte da razão, o homem livre é o homem racional. Preciso dizer que Kant tentou, com sua Filosofia Transcendental, sintonizar o espírito do iluminismo com Deus para nos “salvar” do ateísmo? Tá lá no prefácio da segunda edição da Crítica da Razão Pura.

Quando a militância mainstream agrava a desigualdade.

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Lula tá dizendo que Lava Jato supera Minority Report e Kafka (depois dizem que o cara não lê…). PTistas, Dilmistas e social-democratas em geral estão indignados com a parcialidade e as irregularidades da justiça. Acontece que quando isso rola com os de baixo, e isso rola o tempo todo, os militantes da social-democracia não querem nem se meter a defender os pequenos porque eles são justamente… pequenos. A desculpa de sempre é que eles querem focar no grande e não desperdiçar esforço no resto. Tudo de que se queixam se suceder com Lula já aconteceu e ainda acontece com militantes e ativistas políticos de correntes menosprezadas por eles. Acontece também com os pobres em geral. O grande problema é que se só vale a pena lutar pelos figurões em vez dos pequenos, eles estão fazendo da desigualdade regra. Em vez de lutarem por igualdade política, estão justamente perpetuando o privilégio do grande sobre o pequeno, do rico sobre o pobre, do “importante” sobre o “descartável”.

Vale lembrar que em 2014 no Rio Grande do Sul, durante o governo de Tarso Genro do PT, lideranças indígenas do povo Kaingang foram chamadas para uma reunião em Faxinalzinho com o governo sobre demarcação de terras, porém a reunião foi uma emboscada na qual cinco dos indígenas foram presos e acusados de envolvimento na morte  de Olices Stefani, ex-presidente do sindicato rural de Abelardo Luz. De acordo com Roberto Liebgott do Conselho Indigenista Missionário, eles foram presos não por envolvimento na morte, mas por serem da liderança do movimento indígena local por demarcação, de forma a criminalizar o movimento.

Vemos então que o PT realmente foca no grande. Quando é para defender, defendem seu próprio figurão, mas procuram invisibilizar os pequenos que sofrem do mesmo que eles se queixam. Quando atacam, usam das mesmas táticas dos inimigos, pulando em cima das lideranças dos indígenas para tentar quebrar o movimento como um todo. Sabem quando eles ligam para os pequenos? Quando estes estão de acordo com os termos deles, com eles no poder. De outra forma, para eles, não pode ser.

A luta revolucionária é legítima defesa

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Tanto os mais pobres como os mais ricos são movidos por senso de autopreservação. A base exige igualdade porque está em posição de desvantagem, enquanto a elite defende a desigualdade porque não quer perder o que tem. Só que a base está numa luta por sobrevivência e dignidade e a elite sobreviveria muito bem apenas com uma parcela do que hoje tem.

Mas tudo bem. Não há céu ou inferno. Não há uma moral objetiva no universo. Se você não tem compaixão pelos outros, em princípio, não vai perder nada sendo um escroto – em princípio! Embora não exista uma moral objetiva, interesse pessoal e solidariedade ainda existem. Eu acredito que, mesmo sem uma lei moral regendo o universo, ainda há uma ética que guia as relações interpessoais de acordo com a quantidade de bem que se possa gerar (ou de sofrimento que se possa diminuir). A partir disso, podemos pensar numa comunidade ética, ou seja, pessoas unidas por laços de interesse mútuo pelo bem-estar. Eu quero ser feliz e não quero ver você infeliz. Você tem a mesma postura. Logo nós  respeitamos e ajudamos um ao outro. É certo que tendemos a priorizar aqueles com os quais temos laços pessoais, mas buscamos incluir toda humanidade na medida do possível. Continue lendo

Egoísmo e altruísmo

Eu acredito na noção de que somos todos egoístas. E eu acredito também em altruísmo. Como pode ser?

Egoísmo significa que tudo que faço, faço pela satisfação pessoal. Quando faço bem a alguém, é porque eu tiro satisfação do meu ato. Altruísmo significa que eu me sacrifico de alguma forma para fazer o bem aos outros. Eu perco dinheiro, tempo e possivelmente até a vida pelo bem alheio. Como pode ser, então, que eu faça o bem por satisfação pessoal enquanto morro no processo? Mortos não sentem satisfação. E mesmo que eu não morra, como posso me sentir satisfeito quando o sacrifício, ao menos em tese, pesaria mais do que a satisfação? Continue lendo