Temo que estejamos fodidos…

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O que eu fiz pra merecer?

Não existe mais esquerda. A frase parece absurda, mas continue me acompanhando. Há indivíduos de esquerda. Há partidos realmente marxistas, mas de pouca expressão política. Há alguns coletivos anarquistas muito mal articulados entre si. E só. Nada que vá influenciar os eventos em nível de sociedade. A social-democracia abraçou o neoliberalismo e, portanto, não é esquerda. Ela se sustenta através de mero relativismo: é a alternativa “à esquerda” da direita. Daí vem a falácia, pois entre duas posições, a mais à esquerda não está necessariamente do lado esquerdo do espectro político.

Até pouco tempo, o povo não ligava para esse papo de esquerda/direita. Levava o pleito quem se oferecesse melhor pela lógica do mercado. E o grande trunfo da social-democracia era sua aceitação do capitalismo enquanto mantinha seu apelo trabalhista. Era a síntese entre a conservação do que o eleitor já estava acostumado com aquilo que ele queria mas não tinha. Era o produto mágico que prometia mudar tudo mantendo tudo igual. Só que a social-democracia, por natureza, foi adotando as novidades produzidas pelo capitalismo. E cavou sua própria cova.

Social-democracia e social-liberalismo não têm mais diferença alguma. Só norte-americano tem coragem de chamar o Partido Democrata de esquerda. E depois que a social-democracia completou seu translado para a direta, para que ela serve? Como eu disse, o povo não ligava para esq/dir, mas hoje há uma inclinação bem maior do que antes a se declarar ‘de direita’. A social-democracia é a direita que se diz de esquerda e isso lhe custa votos. O povo mais humilde pode continuar não ligando para a dicotomia política, mas a mídia mantém seu ataque à esquerda e a associação pega mal. Por isso o PSoL evitou usar o termo esquerda na última campanha (mas veículos de mídia mantiveram viva a associação).

Isso tudo nos ajuda a entender por que os dilmistas culpam 2013 pelo golpe que sofreram. O povo foi para as ruas em julho ainda sem uma ideologia unificadora. Quem ficou nas ruas depois de julho era sim de esquerda, mas até ali, a coisa ainda não estava definida. Se não é a dicotomia esq/dir, o que une o povo? Primeiro, o desejo de prosperar seja qual for o meio; segundo, a precariedade que dificulta a prosperidade. No meio capitalista,  prosperar é ‘subir na vida’ e acumular propriedade. Nossa sociedade promoveu o crescimento da pequena burguesia. Tanto é que várias categorias que põem o bloco na rua se chamam de ‘trabalhadores’, mas de proletariado não tem nada!

(Anarquista, lembre-se disso: se te chamarem de ‘pequeno burguês’, pergunte à pessoa sua profissão. Há grandes chances de você ser uma vítima de hipocrisia.)

O povo estava legitimamente descontente, mas sem uma ideologia, faltava uma cabeça que lhe suprisse as mínimas hipóteses políticas. E esse era o grande medo da social-democracia no Brasil, pois chamada a agir, ela só tinha ações de direita no repertório e seu discurso, sem correspondência com suas ações, revelava esgotamento. Foi então que a direita preencheu esse vazio ideológico.

Dilma cai e, mais tarde, os EUA elegem Donald Trump. Se a esquerda institucional não teve vergonha de deslizar para a direita, por que se escandaliza com a guinada do povo? Como eu disse, expandimos a pequena burguesia. Não existe consciência de classe quando se vê um contínuo de classe média da pobreza até a riqueza. O sujeito pode ser um gerente de loja de merda, mas acha que tem mais a ver com o Paulo Skaf do que com seus subordinados! E a social-democracia achou que poderia se manter com um discurso de esquerda enquanto defendia uma estrutura sócio-econômica de direita!? Ah, faça-me o favor!

Não poderia ser diferente. Se a social-democracia é o mais à esquerda que conseguimos chegar, não poderia ser diferente. O mais a esquerda que conseguimos chegar acabou sendo uma sociedade de direita. Através da internet, as pessoas perderam o medo de expressar aquilo que até então não falavam olhando nos olhos do outro. E, não por difusão do conhecimento teórico, mas por mera simpatia de posições, essas pessoas passaram a gravitar ao redor de um senso-comum raivosamente individualista, sem solidariedade, sem noção de alteridade, numa lógica do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, querendo esmagar para não ser esmagado. E assim, acefalamente, foi-se preparando terreno fértil para uma nova cabeça ser plantada na forma de teóricos e articuladores oportunistas: a alt-right, que pega aqueles mesmos preconceitos de grupos violentos que ela diz rejeitar e os leva por uma seara mais apresentável. Uma tentativa de sanitarização do fascismo, se me permitem dizer.

Só que as mudanças do meio foram para todos. Nós da esquerda temos acesso à internet também. Nós exercemos as mesmas profissões que todo mundo. Andamos nas mesmas ruas. O que aconteceu? Não sei. Enquanto esquerdista, minha vista ainda está embaçada. É esse embaço que eu quero tirar. Talvez não estejamos mais vendo o mundo de frente. Temos de parar de fingir que servidor de repartição pública é proletário. Fazer parte de um sindicato marxista não te coloca fora da classe-média. Temos parar de achar que basta a coisa ficar muito ruim para uma nova sociedade surgir automaticamente das cinzas da atual. O capital constantemente experimenta o quão fodido o povo aguenta ficar e não há sinais de uma revolução no horizonte. A direita opera com o senso-comum das pessoas. A esquerda, ao contrário, precisa se entregar a uma construção. Se mesmo a natureza é a sobrevivência do mais forte e a direita se baseia numa teleologia social-darwinista, nós da esquerda precisamos lembrar que os avanços da humanidade são artificiais por definição. A ciência e a tecnologia são artificiais. As artes e a literatura são artificiais. A aplicação do conhecimento para salvar os doentes e fracos através da medicina é completamente artificial. Alguém pode não gostar do que digo e apontar várias características bonitas naturais ao ser humano, mas não me interessa se algo é natural ou artificial. Me interessa saber se é bom, se gera bem-estar. Uma sociedade sem governo, mas com ordem, é claramente uma construção e eu a quero mais do que qualquer outra coisa.

Cris Oliveira é um pequeno burguês desempregado, vivendo de favor e sem nada em seu nome. 

PS: Vocês devem estar se perguntando por que continuo a me chamar de esquerdista se meses atrás critiquei a noção de esquerda/direita. Bem… eu também estou.

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