Ocupações e auto-gestão

13532921_1704077949854709_206089721928515709_nMe disseram que as ocupações secundaristas no Rio de Janeiro estão dando um show de auto-gestão, embora elas façam demandas ao estado. Já as universitárias, não sei. Na faculdade onde estudei, o foco principal parece ser a PEC 241. Eu entendo que nem todo mundo na ocupação seja anarquista, então muitos dos participantes naturalmente devem acreditar que é uma boa ideia reivindicar que o governo promova inclusão através de serviços públicos. Afinal de contas, é uma universidade federal. Faz sentido que o estudante de uma instituição do estado queira que a arrecadação fiscal retorne em acesso do povo ao ensino superior.

Eu preferiria que os estudantes universitários, neste momento de união e convívio, aproveitassem a oportunidade para cultivar a auto-gestão e fomentar a independência do poder popular. Digo isso porque não acredito mais em nenhuma solução para a sociedade que não seja uma total mudança estrutural de sua organização. Seguir falando em destruir o capital através de sua manutenção é loucura. Manter também o estado significa manter o maior meio de conservação do capital. No final de contas, lutar politicamente sem apostar numa ruptura é pedir favores de seus inimigos.

Obviamente, tais experimentos limitados de auto-gestão são insuficientes, mas é por isso que falo da importância de aproveitar as oportunidades para cultivar auto-gestão, como  experiências embrionárias de um novo valor na nossa cultura. Do contrário, teremos apenas algumas iniciativas autogeridas dentro de uma sociedade ainda capitalista. A maioria das pessoas espera que o dinheiro de seus impostos garanta serviço estatal gratuito. Mesmo quem prefere sonegar não pode deixar de pagar impostos sobre circulação financeira e de mercadorias. Portanto, é importante aproveitar cada oportunidade para cultivar o valor da auto-gestão para que possamos esperar que, em algum momento no futuro, a auto-gestão abarque toda cadeia produtiva. É preciso começar de alguma forma, mas já tendo em vista o objetivo da autossuficiência libertária.

Charge de hoje

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Retrato do capitalismo: membro da classe média beijando os sapatos que lhe pisam na vã esperança de um dia calçá-los. O sujeito pode ter apenas uma padaria, mas se acha no mesmo patamar de um Paulo Skaf da vida, só faltando o ridículo jardinzinho implantado no quengo. Manipulado pela alta burguesia, acha que reivindica benefícios para si.

Temo que estejamos fodidos…

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O que eu fiz pra merecer?

Não existe mais esquerda. A frase parece absurda, mas continue me acompanhando. Há indivíduos de esquerda. Há partidos realmente marxistas, mas de pouca expressão política. Há alguns coletivos anarquistas muito mal articulados entre si. E só. Nada que vá influenciar os eventos em nível de sociedade. A social-democracia abraçou o neoliberalismo e, portanto, não é esquerda. Ela se sustenta através de mero relativismo: é a alternativa “à esquerda” da direita. Daí vem a falácia, pois entre duas posições, a mais à esquerda não está necessariamente do lado esquerdo do espectro político.

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Minha passagem pela “Alternativa Popular”

Minha participação na iniciativa Alternativa Popular foi um episódio confuso. Desde o início achei que a pauta não era compatível com o anarquismo, pois focava em reformas. Mas acreditei que seria importante combater a diminuição de direitos que se intensificaria com o governo Temer. Ademais pensei que, botando o bloco na rua, haveria oportunidade de fazer propaganda anarquista “boca-a-boca”.

Saí logo dessa iniciativa, pois entrei num período meio recluso. Não acesso mais o Facebook, embora ainda mantenha minha conta ativa. Não vejo muito problema em ter produzido ilustrações para a campanha. Já fiz charge para os comunistas, por exemplo. Não tenho problemas em fazer arte para fora do anarquismo se for um lance sincero. No Alternativa Popular, não ilustrei nada em que não acreditasse.

Acho que a campanha mingou. Parece ter se tornado um canal para dilmistas gritarem Fora Temer – isso era previsível. Mesmo que consigam botar o bloco na rua, não me parece uma boa ideia tentar propagar anarquismo ao lado da CUT  que serve de polícia ideológica nos atos. Levante uma bandeira com “A na bola” e os caras chamam a polícia como se isso fosse crime. E a polícia te leva feliz. Você não fica preso, mas fica detido. Talvez durma na delegacia, dentro da cela.

Eu tenho preferido fazer um trabalho silencioso de divulgação do anarco-comunismo. Não por ser menos arriscado 🙂 , mas por requerer menos comprometimentos. Não dependo de muita gente e é mais fácil de realizar. Espero estar mais ativo coletivamente em breve. Sístole e diástole.

Democracia direta e anarquismo

Tenho uma dúvida. Será que eu, até agora, tive uma compreensão errônea do anarquismo? Quando comecei a ler sobre Murray Bookchin, descobri que sua saída do movimento anarquista se deveu à rejeição do movimento da sua defesa por uma democracia direta. Ué? Mas anarquismo não defende democracia direta?

Parece que existe uma rejeição conceitual. Democracia pura significa governo da maioria. Em outras palavras, tirania da maioria. Obviamente, anarquistas não gostam nem um pouco de tirania, seja da maioria, da minoria, de onde for. Isso tudo faz sentido, mas será então que eu e meus companheiros temos feito a coisa de forma errada?

Sempre me pareceu que sindicalistas e exércitos revolucionários tomavam decisões através do voto. Eu ainda não conferi cada caso, mas continuo acreditando que tenho razão. Apesar disso, acredito que cada pessoa deve ter liberdade para viver como quer enquanto não prejudicar os outros e nenhuma assembléia deve se meter nisso. Para se meter na vida dos outros existem os amigos e parentes, não as assembleias (lol). Mas toda outra questão que for de foro coletivo deve ser decidida por democracia direta. Qual a alternativa? Consenso? Quando algo é muito importante, consenso pode ser necessário, mas é preciso de consenso para coisas banais, como o conserto de um cano d’água? Será que um coletivo com tal requerimento consegue andar? Se alguém for terminantemente contrário a uma proposta por sérios motivos, eu até entendo que ela não passe, mas do contrário, não vejo necessidade de consenso para toda e qualquer coisa.

(Lembrando que decisões diretas em assembleia por consenso também são uma forma de democracia direta.)

Portanto continuarei defendendo democracia direta. Quais regras e limites ela terá para proteger as minorias não contempladas, isso é coisa para cada coletivo ou comunidade decidir.

Falando em Bookchin, será que alguém pode me indicar leitura sobre Comunalismo/Municipalismo libertário? De preferência em livro (em português, mas na falta, serve em inglês).

O DCM é engraçado…

O Diário do Centro do Mundo é um site engraçado. Eles disseram que a eleição de Donald Trump sinaliza o fim da globalização! Tudo porque a campanha de Trump focou em nacionalismo, protecionismo e xenofobia. Acredito que o referido editor do DCM não saiba o que é globalização. O que move a globalização é a internacionalização do mercado. Protecionismo nos países ricos sempre existiu, não é novidade, mas essa história de que Trump vai forçar as empresas locais a trazerem suas fábricas de volta aos EUA não me convence. O empresariado só aceitaria algo assim se houvesse uma contraparte muito boa, como uma baita isenção fiscal ou subsídios do governo, o que é basicamente o contribuinte americano pagando para trabalhar. Ou seja, se as empresas quiserem continuar fabricando em países pobres, elas vão continuar. Do contrário, o governo Trump se tornará impopular entre a elite, que vai torná-lo impopular perante o povo através da mídia e, no fim do mandato, as pessoas votarão na sua oposição e essa dancinha de sempre continuará.

Globalização é isso: multinacionais produzindo e montando em países pobres e com um mercado consumidor em escala mundial; bancos como credores de países. Mexicano nos EUA? Não é isso que define a globalização. É apenas uma das consequências do mercado globalizado. Abertura de fronteiras e transnacionalização de infraestrutura é para a livre movimentação de mercadorias, nunca foi pela união dos povos em harmonia e blablablá pomba branca. Globalização é vender armas para genocídios de povos com os quais você nunca entrou em contato, a despeito dessa mesma globalização. Árabe na Suécia é tão consequência dessa globalização como o sueco que faz campanha pro árabe sair do país. Quando foi diferente?

E é por isso que eu rio da pseudo-esquerda mainstream: eles não sabem mais por quais causas lutam nem contra quais. Ok, serei honesto: eles sabem, sim, mas meter o terror dá muito mais ibope.