Pequeno rant anti-capitalista

Internet é uma coisa engraçada, não? É o lugar onde você se permite fazer aquilo de menos produtivo. Eu, por exemplo, decidi me concentrar em refutar apenas os melhores argumentos dos meus interlocutores e ignorar os piores. Entretanto, vira e mexe, eu perco tempo lidando com bobagens alheias.

Vez ou outra alguém diz sobre o socialismo que é um sistema que matou milhões e não deu certo em lugar nenhum. Eu deveria ficar calado, pois quem diz isso provavelmente não se refere ao anarquismo (falarei sobre isso depois, pois o texto ficou maior do que o previsto). Mas como esses gênios juntam toda forma de socialismo no mesmo saco do comunismo, acho que eu posso me considerar convidado à festa e questionar qual é o parâmetro que usam para considerar sistemas como que “deram certo” ou que são “pacíficos”. Ou seja, eu quero saber como o capitalismo satisfaz esses critérios.

Porque não satisfaz. Não adianta citar um ou outro país de primeiro mundo e dizer que ele vai muito bem. Capitalismo é um sistema global. A riqueza dos países desenvolvidos dependem dos países periféricos abastecendo-os de mercadorias brutas (matérias primas e bens de base de produção) e fornecendo mão de obra barata. Para tanto, políticas econômicas são empurradas sobre países pobres e em desenvolvimento que não são praticadas nos países centrais. Esse movimento de abertura de mercado ao capital estrangeiro, destruição de garantias trabalhistas e austeridade nos gastos públicos não é algo que se promova na mesma proporção em países ricos – precarização das leis trabalhistas na França já é suficiente para revolta popular generalizada, mas é menor do que o golpe de estado brando no Brasil ou a precarização de inúmeros aspectos da vida na Grécia. Nos EUA, há subsídios na indústria e agricultura, protegendo-as da concorrência externa, e, embora a saúde seja privada, o governo oferece seguro saúde que cobre o atendimento. Porém, para países como o nosso, o que se prega é a entrega total de tudo ao capital privado, a liberação de propriedade de latifúndio a capital estrangeiro e aumento de atratividade para investimentos de fora.

[“Epa! Um anarco defendendo o estado?” NÃO! Eu estou analisando o capitalismo, onde ou há estado ou há iniciativa privada. Eu posso ser contra o estado, mas o que o estado administra são considerados os bens e interesses públicos. Portanto, dentro de uma realidade capitalista, eu vou preferir sim que o estado controle o que for do interesse estratégico da sociedade em vez de ver isso entregue ao capital privado e revertendo em lucro apenas para seus donos, pois o objetivo da máquina pública é o desenvolvimento social, coisa com a qual o setor privado não tem o mínimo compromisso.]

E agora para a questão da paz. Segundo Tsuyoshi Hasegawa, o Japão se entregou na 2ª Guerra porque a União Soviética estava na Manchúria pronta para atacar seu território e não pelas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Certa ou errada essa afirmação, temos ao menos como o fato a proximidade do fim da guerra através da invasão soviética. Porém os EUA impediram tal desfecho com o maior ato terrorista da história. Terrorismo, de acordo com Michael Waltzer é tomar como alvos civis aleatórios dentro de uma determinada demografia para convencer seus líderes a mudarem de ideia. Ou seja, matar gente inocente para o Japão se entregar foi terrorismo. Não só isso, mas foi a maior taxa de mortes por segundo na história humana. Então eu pergunto: o capitalismo é mesmo tão inocente assim?

Aumentemos nossa lista de empreitadas bélicas. Contra o comunismo: Coréia e Vietnam. Não sei muito sobre Guerra da Coréia, mas no Vietnam, para lutar contra tática de guerrilha, alvos civis (chamados de ‘inocentes’ no parlance bélico) foram considerados legítimos para empreender a guerra. Para manter hegemonia do dólar e outros interesses comerciais: Oriente médio. Iraque? Saddam Hussein resolveu vender petróleo em Euro para quebrar com o pretrodólar – dólares não possuem lastro em ouro e desde que o padrão ouro foi abandonado, entrou em rigor pela OPEP o acordo de que petróleo deveria ser vendido internacionalmente em dólares. Líbia? Que tal os emails vazados da Hillary Clinton contando como outros países só aceitaram participar da derrubada do Kaddafi se pudessem explorar o petróleo local e também sobre o papel da Google nessa guerra?

Que tal falarmos do neocolonialismo, quando a África foi fatiada para que os países capitalistas centrais levassem Darwinismo Social ao continente em troca de sugar recursos naturais e bagunçar todas as relações étnicas deixando boa parte do continente empobrecido e cheio de guerras que servem até hoje para encher o bolso da indústria armamentista (isso quando as guerras não são lutadas com paus e pedras)? Vamos falar também de quando a Inglaterra forçou a China a comprar seu ópio? Ou então vamos falar de algo mais familiar a nós: falemos sobre como nossas relações econômicas já citadas promovem o caos do serviço público e o abismo da desigualdade social, resultando em violência e péssima saúde, o que, por sua vez, resulta em mortandade?

E talvez o mais importante é dizer que muitos desses países ricos não são perfeitos como muitos acreditam ao vê-los através da TV. Pensemos nos conflitos atuais do presente nos EUA, com ações policiais racistas e homicidas e bolsões de pobreza e fome. A população oprimida nos EUA tem nos dado notável exemplo de resistência. Conforme o poder corporativo cresce em comparação com o poder estatal, impõe-se aos governos, mesmo nos países ricos, a desregulamentação ou flexibilização de relações trabalhistas ou assistencialismo a pobres ou necessitados por questão de saúde. Embora não na mesma proporção com que são impostas ao terceiro mundo, o primeiro mundo não pode resistir para sempre a esses movimentos para os quais o terceiro mundo é seu laboratório de testes. O resultado disso são revoltas como vemos hoje na França e, alguns anos atrás, vimos na Inglaterra. No mundo inteiro, há a tendência da remoção de populações mais humildes de suas moradias para suas terras serem transferidas ao setor privado. Será que num futuro próximo o capital privado suplantará por completo o poder político dos governos?

Então me digam em que planeta o capitalismo é um sistema que deu certo e promoveu a paz e a igualdade como imaginado por Benjamin Constant no seu célebre discurso em 1819? Com certeza, não foi na Terra.
Gostaria de agradecer ao Professor Wallace Moraes por ter me ajudado na revisão deste texto. Se ainda existir alguma besteira no texto, a culpa é toda minha e não dele. 😉

Fontes:
http://archive.boston.com/bostonglobe/ideas/articles/2011/08/07/why_did_japan_surrender/
https://www.washingtonpost.com/blogs/govbeat/wp/2015/03/17/the-united-states-of-subsidies-the-biggest-corporate-winners-in-each-state/
https://www.globalpolicy.org/component/content/article/173/30447.html
http://www.fafich.ufmg.br/~luarnaut/Constant_liberdade.pdf
http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/Titulos/visualizar/guerra-dos-lugares
http://www.commondreams.org/views/2016/03/13/exposing-libyan-agenda-closer-look-hillarys-emails
http://www.globalresearch.ca/hillary-clintons-emails-confirm-the-real-agenda-behind-the-us-nato-war-on-libya/5502444

ERRATA: o trecho sobre privatização do ensino superior nos EUA foi retirado por estar completamente equivocado. Um parágrafo foi adicionado tratando dos conflitos de interesse capital x povo no primeiro mundo.

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