Desenhista que pensa que me engana

Eu tenho algo a declarar sobre a página de facebook “Desenhista que pensa”.

Como alguém pode se aproveitar do sofrimento das pessoas e de um momento de comoção como este para fazer troça do movimento feminista? Em sua última tira, não só eles ridicularizam as feministas, retratando-as de forma estereotipada, como deturpam suas pautas para defender a proposta de Jair Bolsonaro pela castração química e também a redução da maioridade penal.

É uma cascata de falácias atirada pela tal página. Primeiro e de cara, um ad hominem. Segundo, mesmo para alguém a favor de castração química e redução da maioridade penal, ser contra a cultura de estupro ou o machismo em geral também é possível. Nenhuma das três propostas são mutuamente excludentes. Porém as duas primeiras só dizem respeito a crimes ou tentativas que já ocorreram. Só o combate ao machismo atua diretamente na causa. Mesmo que se pense na punição como exemplo, o estuprador condenado já é punido. Ele ingressará num sistema carcerário internacionalmente reconhecido como brutal e precário, onde os próprios presos costumam torturar estupradores, não raro o estuprando no processo. E mesmo assim tal exemplo não desmotiva os estupradores.

Terceiro, apresenta de forma distorcida a questão da maioridade penal. Se a questão for prender ou não prender, como a página apresenta, o menor já é preso, só não cumpre a mesma pena do adulto e nem no mesmo local – não que a prisão para menores seja menos precária ou brutal. Se for a dureza da pena, há outras propostas para além de desconsiderar sua menoridade e jogá-lo entre criminosos profissionais. Pode-se até mesmo defender que se considere a periculosidade do sujeito para pedir extensão da pena – de fato, isso já existe!

Quarto, ridiculariza passeatas como se fossem inúteis e reforça a vergonha do próprio corpo ao ser contrário ao topless como protesto, embora seja uma afirmação de que o corpo da mulher é dela para decidir o que fazer e nem uma situação como essa é licença para abuso. Qual a alternativa que a tal página propõe? Apoiar lideranças políticas que proponham aquilo que já questionei neste texto em vez de se manifestar publicamente contra as causas da violência contra as mulheres.

O que eu tiro de tudo isso? Os responsáveis pela página “Desenhista que pensa” são oportunistas, insensíveis e se sentem incomodados o suficiente com o movimento de vítimas em ato ou em potencial de violência ao ponto de se porem contra suas propostas e oferecerem outras que não funcionam, de maneira que nada de eficaz seja feito para mudar a situação.

Ter a quarta maior população penal do mundo não nos ajudou até hoje na questão da violência e, numa rápida comparação entre populações carcerárias relativas às totais e taxas de estupro, não vi relação entre as duas coisas. Por que a fixação no punitivismo em exclusão ao combate ao machismo, então?

http://www.prisonstudies.org/highest-to-lowest/prison-population-total
https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_and_dependencies_by_population
https://knoema.com/atlas/ranks/Rape

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