Conservadores, ma non troppo

Ainda falando sobre a dicotomia esquerda-direita, eu penso que o brasileiro mediano até recentemente não se identificava como de esquerda ou direita. E como consequência disso, apesar de hoje em dia ser mais fácil para a maioria das pessoas se declarar como um ou outro, é muito comum encontrar contradições naquilo em que elas defendem. Mesmo que eu tenha dito antes que esquerda-direita é uma simplificação exagerada que nos prejudica muito a perceber as diferentes ideologias, ainda dá para dizer que há alguns valores centrais a uma ou outra posição política e o cidadão médio não se alinha completamente com o que ele diz defender.

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Por exemplo, se pegarmos a manifestação conservadora pró-impeachment de 16 de agosto de 2015 e olharmos o resultado da pesquisa de perfil feita pela USP (https://gpopai.usp.br/pesquisa/), no tocante a direitos dos brasileiros e deveres do estado, a maioria acredita que o estado deve prover educação e saúde gratuitas para a população. Isso choca de frente com o que alguns dos organizadores da manifestação, como o Movimento Brasil Livre e a Globo, propõem. Sim, eu tenho de incluir a Globo, pois participou ativamente da divulgação do ato e o cobriu durante todo o dia da mesma forma como cobre grandes eventos para os quais ela compra os direitos de transmissão, dando total prioridade em sua programação. E os valores políticos e econômicos que a Globo defende são bem conhecidos: a) a Globo atuou junto com o governo americano para a instalação e manutenção de uma ditadura no Brasil com o objetivo de impedir políticas econômicas que não estivessem de acordo com o liberalismo americano, assim como o governo americano também promoveu outras ditaduras pela América Latina com o mesmo objetivo; a mais notória talvez sendo a chilena, que serviu de laboratório para o Neoliberalismo do Departamento de Economia da Universidade de Chicago, que viria a ser praticado posteriormente no primeiro mundo com Margareth Thatcher e Ronald Reagan; b) através de seus jornais, a Globo não só enfatiza os aspectos ruins dos serviços públicos no Brasil – e tem motivos para isso – como também retrata empresas públicas de sucesso como se estivessem no fundo do poço, passando a ideia de que a coisa pública deveria ser entregue ao capital privado, pois só o setor privado seria capaz de administrar com qualidade. Sim, eu me refiro à Petrobrás, que é sim cheia de corrupção e isso deve ser resolvido através das devidas medidas sobre os responsáveis, mas apesar de tudo isso, tornou-se em 2015 a maior produtora de petróleo entre as empresas de capital aberto do mundo. (http://bit.ly/1qkJc8g)

[Talvez alguém ache estranho eu defender a Petrobrás apesar de ser anarquista, ou seja, eu não deveria defender uma empresa estatal. Sim, eu preferiria muito que a Petrobrás fosse controlada pelo povo ou pelo conjunto de todos os funcionários que lá trabalham. Mas pergunte-se isso: eu deveria preferir que, em vez do estado, que no regime político vigente é o administrador do patrimônio público, a Petrobrás fosse entregue ao setor privado, deixando completamente de ser patrimônio público?]

E sobre o Movimento Brasil Livre, Estudantes Pela Liberdade, Partido Novo ou qualquer outro nome que assumam, estes são grupos apoiados [financiados] pelos americanos Students for Liberty (percebe que Estudantes Pela Liberdade é meramente uma tradução desse mesmo nome?), que trabalha com grupos como Americans for Prosperity, que promoveu recentemente uma ofensiva contra a educação pública americana, entre outros grupos conservadores americanos, promove palestras e encontros sobre ultraliberalismo e egoísmo ético (vertente da Ética que diz que a única pessoa com quem você tem obrigação de se preocupar é você mesmo e, se você não tiver apreço por outro alguém, esse outro alguém que se dane, pois o fracasso alheio seria expressão legítima de sua liberdade) pelos EUA e a América Latina, levando suas “estrelas” de um país para outro, e fomenta alianças políticas. Alguns desses institutos americanos são financiados pelo mesmo conjunto de empresários e lobistas. (Mais informações: http://bit.ly/1UtWR9N, http://bit.ly/1UtWZWI, http://bit.ly/1UtWTyw.)

Embora, como eu já disse, dentro do espectro da direita, valores conflitantes sejam defendidos, é notório que o liberalismo promova uma separação da política e dos assuntos particulares dos seus cidadãos, como, por exemplo, pode-se ler num discurso de Benjamin Constant no século XIX, e a forma pela qual isso se dá é relegando a administração pública a representantes, de forma a desonerar os cidadãos comuns para que estes possam exercer livremente relações comerciais de venda de produtos ou serviços. No presente momento histórico, os representantes do liberalismo mais radical, que é o que chama o povo para tais manifestações, são aqueles que defendem que até mesmo serviços básicos sejam oferecidos na forma de serviços comerciais não regulados em vez de públicos e gratuitos. Isso pode ser visto na reação conservadora contra a lei americana de maior regulamentação de serviços de saúde e expansão de assistência pública, o Obamacare. (Em vez de hospitais públicos, nos EUA, há repasse de verba para hospitais do setor privado e planos de saúde subsidiados pelo governo.) Outro modo pelo qual vemos isso é pela forma como foi elaborado o organismo “Todos Pela Educação”, através do qual a ‘sociedade civil’ se uniria ao estado para garantir um mínimo de educação à população. Porém essa tal ‘sociedade civil’ consiste em empresas como a Globo, Gerdau, Itaú, Bradesco, Suzano, etc e intelectuais do neo-liberalismo de terceira via (um termo para indicar uma via pelo centrão, o que não me convence, por sinal), alinhados às recomendações do Banco Mundial, resultando num compromisso de aumento de verbas e de rendimento escolar abaixo do que outros setores defendem – compromisso que não foi cumprido. (Se lembram daquele papo de mínimo de 10% do PIB para educação? Pois é: o Todos Pela Educação defendia só 5%.). Em resumo, os filhos de quem não puder pagar por escolas de qualidade merecem apenas aprender o suficiente para apertar porca e parafuso para as empresas que financiam tal compromisso educacional, enquanto especializações em formações para além do trabalho técnico mais elementar devem ser oferecidas como serviços privados, dentro de uma visão na qual a educação humanística e continuada é um luxo e não um direito. (http://bit.ly/1Solcb5) Essa tendência se confirma em todas as vezes que a revista Veja, por exemplo, defendeu a privatização das universidades públicas brasileiras, inclusive através de entrevistas com ilustres não-sei-quens vindos lá da casa do caramba para nos mostrar como nós somos politicamente primitivos perante a gringolândia.

Esse desalinho entre o povo que serve de massa de manobra e os articuladores dessa manobra se dá pelo fato da população não ter conhecimento e consciência política suficientes para avaliar a coerência da pauta que é levada a defender e se guia através de senso comum. Posso até soar arrogante aqui, mas basta um passeio por redes sociais e seções de comentários na internet para confirmar o que eu disse. Nós vivemos hoje numa reedição do pânico do terror vermelho e o inimigo comum eleito por essa massa é o comunismo, que cismam em atribuir ao PT como seu representante maior. Tal erro só pode ser explicado através da repetição constante e irrefletida do que alguns polemistas dizem. Dessa forma, “comunismo” não é mais um conjunto de propostas políticas baseadas numa determinada análise da economia e da história (o Materialismo Dialético de Karl Marx e Friedrich Engels), mas um rótulo para tudo aquilo que essa massa deteste. Coisas muito loucas rolam, como manifestantes chamando a Globo de comunista sem perceber que a Globo promove tais manifestações onde se brada contra o comunismo. Não importa que o governo do PT esteja entregando patrimônio público para o setor privado, como podemos ver nessa foto:

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A lógica do paradigma esquerda-direita no Brasil de hoje é essa aqui:

Eu peço que não falem mal dessa jovem. Tenho certeza que sua falta de conhecimento político não é reflexo de uma falha de caráter. Aparentemente, ela estava lá de boa fé, fazendo aquilo em que ela acreditava ser certo. Mas, mesmo assim, serve de exemplo para mostrar como o posicionamento político do cidadão comum vem se baseando apenas em sua oposição a um determinado grupo político. Se ela é contra o governo do PT e o governo do PT é de esquerda – ou pelo menos diz que é, embora mantenha uma política, digamos, “neo-liberal de terceira via” –, logo ela acredita ser de direita, embora não saiba o que significa nem um nem outro.

O que importa é que, se alguém diz que fulano de tal é comunista, então a massa conservadora se sente na obrigação de odiar tal pessoa. Mas o que é um comunista, mesmo? Vamos perguntar à moça que agrediu o cardeal Odilo Scherer aos gritos de “comunista! A minha igreja não pode ser dirigida [por um comunista]…”:

Por que ela tomou tal atitude? Talvez essa imagem nos traga uma pista:

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Será que ela seguiu os ensinamentos do auto-proclamado filósofo e único intelectual brasileiro que presta, que, entre outras coisas, diz que Obama é comunista (olha!), a elite econômica de Nova York também (aquela de Wall Street, sabem?), Einstein foi um espião soviético nos EUA, que a teoria da relatividade foi um engodo para justificar a “hipótese” de que a Terra gira ao redor do Sol e não o contrário, que “a Pepsi usa fetos abortados como adoçante” (palavras dele, não minhas) e que psicólogos são obrigados a transformar heterossexuais em gays? (Não vou linkar referência bibliográfica. Se você quiser conferir se estou dizendo a verdade, vá buscar pelo Google e no YouTube. Me recuso a postar link para esse sujeito.)

Voltarei a falar sobre essa onda de ódio numa outra ocasião.

De tanto a Globo e outros veículos falarem mal de serviços públicos, e nós sabemos que a Globo não tem interesse na melhoria de tais serviços, apenas fazendo tal cobertura jornalística como forma de fomentar a insatisfação do povo contra governos aos quais ela se opõe, o povo concluiu que quando o estado brasileiro não provê tais serviços com qualidade, está faltando com seu dever para com o povo, mas não que serviços públicos devam ser extintos. Saúde e educação públicas são coisas com as quais o brasileiro está acostumado desde sempre e não concebe um Brasil onde elas não existam. Mesmo que uma empresa privada tome conta de tais serviços, o brasileiro ainda vai querer que o governo pague por seu atendimento de emergência no posto de saúde, por exemplo, e, acredito eu, sem ter de provar burocraticamente que é pobre demais para pagar pelo atendimento.

Se você voltar a olhar a pesquisa, vai ver que, embora a maioria concorde que o estado deve prover transporte público para a população, só uma minoria concorda que esse transporte deve ser gratuito. Por que as pessoas acham que saúde e educação devem ser de graça, mas ônibus, metrô e barcas, não? A única explicação na qual consigo pensar é que embora tenhamos disponíveis serviços de saúde e educação de graça durante todas nossas vidas, nós nunca tivemos transporte público de graça (a não ser os moradores de 12 cidades no Brasil: http://bit.ly/1onHD86). Tarifa zero para transportes não é comum para o brasileiro. Se fosse, ele defenderia tal ideia como um direito inalienável. A defesa que o brasileiro faz de seus interesses se baseia em senso comum e não adesão a um ou outro plano de ideias.

Esse descompasso de ideias não é apenas da direita, pois como já disse, o brasileiro até pouco tempo não sentia a necessidade de se declarar como uma coisa ou outra. Os que se declaravam o faziam por adesão a uma ou outra ideia específica ou a alguma figura que servisse de modelo. Da mesma forma que ódio a Lula ou Dilma hoje faça uma pessoa se declarar como de direita, admiração por Lula faz e fez muita gente se declarar de esquerda, mesmo sem aderir a pautas tradicionais. Ou então, se alguém tem apreço por algum aspecto central da esquerda mas não a outros, ela acaba se dizendo de esquerda mesmo assim. Lembremos de como boa parte da esquerda tem em Getúlio Vargas um herói, embora o mesmo tivesse sido um ditador de inclinações fascistas, perseguindo opositores e realizando aparelhamento de sindicatos numa clara inspiração do corporativismo de Mussolini. Isso me faz lembrar de um professor de Geografia que tive que era petista, varguista, defendia a privatização das universidades (“Se você tá pagando, você pode reclamar.”), defensor de incursões e execuções sumárias da PM nas favelas e presídios entre outras coisas. Bem, tal lista de valores políticos não destoa do que se possa encontrar no PT – tá, o PT criou universidades públicas, mas promoveu o sucateamento do ensino público superior, além de fortalecer as universidades privadas com subsídios –, mas eu preciso perguntar em qual conceito de esquerda tais valores se encaixam.

Cris Oliveira

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