Esquerda – Direita: um modelo gasto?

EsqDir

   Costumo usar os termos ‘esquerda’ e ‘direita’ corriqueiramente quando acredito que serão facilmente compreendidos pelo leitor. Só que tais termos carregam um problema de insuficiência que pode me fazer falhar justamente em ser compreendido. Por que digo isso? Porque usar tais termos faz parecer que haja uma linha reta de um lado para o outro e que tudo é tão simples quanto “se eu sou mais esquerda, sou então menos direita” e vice-versa. O leitor já deve ter visto pela internet alguma versão de um gráfico que mostra direita e esquerda como ‘tamanho do estado’: se você quer um estado que se meta menos em assuntos privados, então você é de direita; mas se você quer um estado cheio de leis, então você é de esquerda. No extremo da esquerda, estaria, absurdamente, o nazismo e outras formas de totalitarismo e, no extremo da direita, tão absurdo quanto, a anarquia. Esse tipo de conteúdo faz muito sucesso na rede por oferecer uma explicação resumida e rápida do mundo e, justamente por isso, é muito ruim.

   Eu tenho percebido faz um bom tempo que, dentro do que se considera ‘esquerda’, há vários posicionamentos em relação às mais diferentes propostas e pautas. Como colocar todos esses posicionamentos numa mesma reta? Não é uma questão de defender mais x ou menos x, mas de defender x, y ou z. Por exemplo, os anarquistas vão defender que o estado desapareça e que toda produção esteja nas mãos do povo auto-organizado. Os marxistas defenderão que um partido centralizado gerencie a produção em benefício de todos os trabalhadores até que esse governo se dissolva naturalmente por obsolência. Dentre os marxistas, alguns vão querer que o povo se revolte contra a opressão das classes dirigentes e se organize em comitês e sindicatos, enquanto outros vão defender que os trabalhadores sejam representados dentro do governo até que sua presença nele seja dominante, de maneira a promover reformas que levem a uma sociedade onde a produção seja gerida pela classe trabalhadora.

   A diferença aqui entre mais ou menos estado é superficial, pois os objetivos desejados são muito parecidos, porém a real diferença está nos métodos. Talvez possa se falar em diferença na velocidade de ruptura com o regime vigente, mas isso apresenta o problema da eficiência: como você pode desejar o fim do estado trabalhando dentro dele, dentro de suas regras em vez de rejeitá-lo? Se você for reformista, como pode esperar superar os problemas do estado reproduzindo tais problemas, como trabalhando em parceria com o grande setor privado e dividindo mesa e palanque com políticos que legislam em causa própria? E mesmo se você for um comunista revolucionário, como você espera que a instituição de um novo governo possa simplesmente se dissolver se, em milênios, o estado não se dissolveu sozinho? (Eu poderia dizer que a maioria esmagadora da esquerda reformista está sim, na verdade, em um ponto menos à esquerda, pois não acredita na superação do capitalismo e defende a continuidade indefinida do estado.)

   Tal problema da eficiência, na verdade, é porque haveria não só a tal linha do mais ou menos estado, mas a linha do mais ou menos capital. Capital significa, a grosso modo, propriedade privada dos meios de produção. O capitalista é, então, alguém que é dono de fábricas, de vastas terras ou que tem tanto dinheiro acumulado a ponto de poder investir na produção em fábricas e terras de outros capitalistas. E quem tem capital pode influenciar a vida de uma parcela muito grande da população, os trabalhadores. A união dos capitalistas numa classe não só decide sobre seus trabalhadores em assuntos como salário, horas de trabalho, preço das mercadorias e abastecimento do mercado, como também tem poder de influência sobre o estado. É com os capitalistas que o estado negocia, não com o povo. Então há claramente uma classe que decide e outra que obedece. É ilusória a ideia de que o trabalhador é livre, pois se tivesse oportunidade, não escolheria viver na precariedade em que vive. Também é difícil crer que possa sair da pobreza para a classe dominante licitamente, sem passar a perna em dezenas de pessoas. E o estado acaba sendo uma extensão da classe dominante, um organismo para manter sua dominação sobre as populações.

   Como então explicar algumas posturas onde se defende a existência do estado e, ao mesmo tempo, o fim da acumulação do capital? Ou então se defende o fim do estado através da conciliação entre setores populares e detentores do capital? Como é possível que defendam a representatividade através de partidos políticos se a grande maioria dos eleitores não tem como influenciar nas decisões de seus representantes eleitos? Como eu posso acomodar isso tudo numa mesma linha reta?

   O mesmo tipo de questionamento vale para a ‘direita’. O que caracteriza ser de direita? No geral, a direita defende a propriedade privada como base da sociedade. Como também defende o acumulo de propriedade privada, costuma defender que exista um estado para defender essa propriedade e essa acumulação. Dessa forma, o estado não deve ter mais funções do que proteger a propriedade privada e o direito do cidadão usufruir dela da forma que bem entender. O estado, então, seria ‘mínimo’. Só que mínimo não significa fraco e, ao mesmo tempo que ele deixaria de cuidar de relações trabalhistas, de regular a economia ou até mesmo de prover saúde e educação públicas, ele cresceria na forma de polícia, forças armadas e sistema penitenciário. A presença do estado quase não seria sentida pelas classes mais ricas, mas com certeza seria maior entre trabalhadores e populações pobres. Disso vem o aspecto do conservadorismo, ou um apreço às instituições culturais da sociedade em detrimento de reivindicações de parcelas da população por mudanças. O exemplo mais forte disso é quando o estado lança mão de violência policial para combater manifestações populares de descontentamento, quase sempre com apoio da mídia hegemônica e conservadora local, trabalhando no fomento desse pensamento conservador através da sociedade.

   Como então posso acomodar tal direita dentro de uma mesma linha reta? Por um lado, a direita defende individualismo para acumular riquezas, mesmo que o restante da população termine numa posição desprivilegiada em sua participação social, e para ter liberdade quase irrestrita na esfera privada; mas, por outro, a direita também defende a conservação de tradições e instituições como meios de coesão social, dando-lhes até mesmo mais importância do que a indivíduos (chamamos tal tendência de reificação ou coisificação, quando damos valor de coisas concretas a abstrações, como ideias e tradições) em detrimento à liberdade desses mesmos indivíduos. Em alguns momentos, a direita vai defender que o estado se finja de morto; em outros, pedirá totalitarismo e militarismo como forma de manutenção de ordem pública. Como se não bastassem tais posturas irreconciliáveis, ainda me surgem quimeras aberrantes como o tal do anarco-capitalismo, que, enquanto defende o total fim do estado como forma de extinguir a dominação sobre mulheres e homens, defende também que os detentores do capital continuem explorando livremente os trabalhadores com a ajuda de agências de segurança que atuariam da mesma forma que mercenários para manter as massas trabalhadoras sob controle.

   Apesar de ter tudo isso em mente, tenho usado os termos ‘esquerda’ e ‘direita’ na esperança de que o leitor saiba do que estou falando, mas, no fundo, sei que esses termos estão completamente esgotados. Enquanto vários usuários de rede social expressam descontentamento com aquilo que chamam de ‘política de esquerda do PT’, o PT, para mim, é um partido de direita por tudo aquilo que já descrevi aqui. E mesmo se fosse de esquerda, para mim, eu que sou um anarquista, o PT estaria à minha direita. E o que posso dizer de outros partidos, como PSTU e PSOL, que existem apenas para galgar os mesmos degraus que o PT já galgou, dominando movimentos sociais, ocupações e sindicatos para tentar alcançar mais cargos no legislativo e no executivo? Enquanto os anarquistas se colocam fora da dicotomia criada entre as manifestações pró-impeachment e pró-Dilma por entenderem que, seja PT ou seja ‘golpista’, nenhum dos dois lados defende uma democracia de verdade – ou pode haver democracia quando pobres, negros, indígenas e camponeses são chacinados como populações descartáveis? –, o PSTU já começou uma campanha que pega carona num movimento que tem Bolsonaro e militares como estrelas para exigir que haja novas eleições, como se eles tivessem alguma chance de conseguir cargos políticos importantes. E alguns grupos do PSOL vão no mesmo barco (apesar do partido oficialmente seja contra o impeachment). Embora eu não defenda a democracia representativa como uma democracia de verdade, eu tenho de entender que PSTU e tais grupos dentro do PSOL estão tentando sabotar as regras do jogo que eles aceitaram jogar, o que é, no mínimo, incoerente e irresponsável. No máximo, dá até para especular que estejam manobrando seu eleitorado e militância a favor de candidatos que tenham mais chance de ganhar do que os seus próprios. Colocando dessa forma, em hipótese alguma tais partidos poderiam ser chamados de esquerda, mas, infelizmente, quando a maioria das pessoas pensa em ‘esquerda’, antes de um conjunto de ideias políticas, vêm a suas mentes justamente esses partidos, como se para ser de esquerda, bastasse que alguém dissesse “eu sou de esquerda, vote em mim porque sou de esquerda” e pronto. Por isso, além do problema de que “as esquerdas” são muito diferentes para serem colocadas todas num mesmo saco, ainda existe essa distância entre o que deveria ser a esquerda e o que os autoproclamados representantes da esquerda realmente fazem.

Cris Oliveira

ADENDO: É comum ouvir dizer no movimento anarquista que “não é possível esquerda no governo, pois governo é, por natureza, de direita”. Se isso for verdade, seria o mesmo que dizer que a única esquerda de verdade possível é o anarquismo. Dessa forma, é mais fácil dizer-se anarquista e deixar de lado o paradigma esquerda/direita, até mesmo porque o resto do mundo continuará a usá-lo para se referir à política institucional, e esse sentido, para o anarquista, soa como oportunismo ou equívoco.

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