Referências da capa

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Hoje, descreverei as referências na capa do álbum Greatest Hits, começando pela capa frontal, a partir do senhor no primeiro plano e em sentido anti-horário:

* Mikhail Bakunin, filósofo e militante anarquista russo, proponente do Coletivismo e um dos pais do movimento anarquista histórico. Foi amigo de Karl Marx, porém os dois terminaram a amizade por divergências políticas – principalmente o controle de Marx sobre a Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores. Após ser expulso da Primeira Internacional, Bakunin formou a Internacional Anarquista St. Imier junto com varios outros ex-membros da Internacional original que o acompanharam.

* Lucy Parsons, ativista e escritora anarco-sindicalista americana. Após testemunhar o que ela acreditou ser um sistema eleitoral armado e como o Estado usava força bruta (tanto com policiais como com capangas) para oprimir trabalhadores, Lucy Eldine Gonzalez Parsons elevou seu radicalismo. No seu artigo intitulado “Uma palavra aos desempregados”, ela afirma que não há patrões bonzinhos num sistema de trabalho maligno e termina o texto com a frase “Aprendam a usar explosivos” (logo a dinamite em sua mão na ilustração). Seu marido foi executado junto com outros após a demonstração em Haymarket Park, Chicago, onde um sujeito não-identificado atirou uma bomba na polícia, que respondeu com tiros, matando vários. O tribunal considerou Albert Parsons culpado de inspirar violência, porém quem atirou a bomba nunca foi encontrado (pode-se até defender a possibilidade de ter sido um ataque “false flag”, orquestrado para justificar reação da polícia). Isso fez com que Lucy Parsons viajasse pelo país para falar sobre perseguição judicial e assassinato pelo Estado. Lucy sempre afirmou ser de ascendência nativo-americana/mexicana, apesar de ser dito até hoje que ela foi afro-americana. Quando pintei a capa, acreditei também que ela fosse negra – apesar de possuir fortes traços indígenas. Hoje em dia, ela é descrita tanto como uma perigosíssima terrorista quanto como uma amena ativista de direitos humanos dissociada do anarquismo, dependendo de quem diz.

* Subcomandante Insurgente Marcos, ex-porta-voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Na verdade, Marcos (subcomandante pois o povo é seu comandante) é um personagem fictício. Sempre que os Zapatistas precisaram de alguém para falar por eles, eles enviavam algum sujeito muito bem articulado vestindo balaclava e geralmente fumando cachinho, que usava o nome Marcos. O EZLN é uma insurgência mexicana na região de Chiapas, formada pela junção de nativos mexicanos e militantes  e intelectuais ex-maoistas da cidade que decidiram levar suas ideias para o interior. Conforme os anos passaram e os pontos de vista de ambas as partes mudaram, eles adotaram ideias do anarquismo e formaram seu próprio conjunto de ideias, o Neozapatismo, em referência a Emiliano Zapata. Em 1994, eles tomaram a cidade de San Cristóbal de las Casas. Negociaram com o Estado, porém foram traídos. Em 2014, Marcos foi anunciado morto e substituídos por Galeano, o nome de um Zapatista nativo de verdade que fora morto.

* Uma soldada curda do YPJ, leal ao PKK – Partido Trabalhista do Curdistão. Conforme os curdos lutam pela independência e sobrevivência na Síria, Turquia e Iraque, o PKK tenta construir uma sociedade inclusiva para curdos, árabes e cristãos albaneses, mulheres e homens. O apoio do ocidente é ambíguo, já que o PKK é oficialmente visto pela OTAN como um grupo terrorista, mas é uma força de resistência contra o ISIS. O elemento mais enigmático na equação é a Turquia, que é uma aliada do ocidente contra o ISIS, mas é sabido que se opõe aos curdos, inclusive ajudando o ISIS contra eles, já que algumas das terras reclamadas pelos curdos estão na Turquia – como se não bastasse, petróleo sírio chega ao ocidente através do ISIS e da Turquia. Embora a resistência curda não seja uma revolução verdadeiramente anarquista, ela toma como inspiração o trabalho de Murray Bookchin, que propôs um sistema de Confederalismo Democrático, onde coletivos populares autogovernados se fariam representados numa federação. As soldados mulheres do YPJ – Força de Defesa Feminina se tornaram famosas por sua bravura em batalha, saindo-se vitoriosas em várias batalhas contra o ISIS e afirmando que se matariam antes que pudessem ser feitas prisioneiras por inimigos que certamente as transformariam em escravas sexuais. Elas são temidas por seus inimigos fanáticos, que acreditam que os portais do Paraíso se fecharão para eles caso sejam mortos por inimigas mulheres. Elas foram fundamentais para a retomada da cidade de Kobanî.

* Uma participante de black bloc. Black bloc é uma tática usada em manifestações onde seus participantes usam máscaras e trajes negros para resistir e responder à brutalidade policial. Eles também atacam símbolos do capitalismo, como bancos, geralmente após a polícia iniciar dispersão violenta, mas nem sempre limitados a esse momento. Meios midiáticos comumente atribuem ao black bloc culpa por toda sorte de confusões durante manifestações, inclusive acusando-o  de começar hostilidades quando, na verdade, quem as começa é a polícia. Também tentam retratá-lo como um grupo organizado com líderes e programas, quando na verdade são encontros mais ou menos espontâneos de indivíduos de mentalidade afim e com intenções de se opor à brutalidade policial. No Brasil, a maioria de seus participantes são adolescentes de áreas pobres, cansados da gentrificação dos centros urbanos e da getificação e da militarização de suas próprias vizinhanças – enquanto a TV os retrata como estudantes universitários abastados, organizados e associados através de grupos subversivos internacionais. Grupos e partidos da esquerda institucional geralmente se opõem fortemente ao black bloc também, já que este balança o cenário eleitoral em que tais grupos participam. Tais partidos desejam ser os líderes incontestes de movimentos sociais e não querem ser relacionados a explosões de insatisfação agressiva que possam prejudicar seus desempenhos eleitorais. O black bloc desafia tudo isso deixando claro o quanto as pessoas não aguentam mais nada disso e quão insuficientes tais grupos institucionais são, até mesmo jogando na cara de todos que partidos apenas desejam se manter no poder através do Estado e de sindicatos. São os participantes do black bloc que apontam os dedos nas caras de tais partidos e dizem bem alto que eles vendem movimentos e greves em acordos com o Estado.

Parte de trás da capa: um ferro-velho de prédios governamentais de vários países. Países representados na ilustração são: EUA, Brasil, Inglaterra, Israel, Japão e México. No outdoor, lê-se: “Peças grátis para cooperativas de trabalhadores livres!”, significando que para construir um mundo justo, o mundo antigo deve ser reduzido ao seus fundamentos básicos.

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