Anarquistas na Revolução Russa – UERJ

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Nesta última sessão de 2017, vamos discutir a presença de anarquistas no processo revolucionário russo: a formação dos conselhos populares, a revolução de 1905, a Makhnovtchina, o episódio de Kronstadt e o que podemos aprender disso tudo para os dias atuais.

Para tanto, a professora Camila Jourdan fará uma apresentação do seu trabalho sobre o tema e em seguida vamos debater a partir de suas provocações.

Link para o texto-disparador: todo-poder-aos-sovietes

Grupo de Estudos Anarquistas Maria Lacerda de Moura; 
Evento no Facebook

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Slavoj Žižek: o Bannon da esquerda ou Trumpismo Lite?

Original aqui.
por Alexander Reid Ross,
traduzido por Cris Oliveira

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“Não admira Spencer chamar Žižek  de seu esquerdista favorito.”

O artigo de Slavoj Žižek no Independent ultrapassa seus trabalha seus trabalhos anteriores no fracasso audacioso e por vezes chocante em compreender até mesmo os mais básicos dos problemas na vida política da esquerda dos EUA. Explicarei a posição dele primeiro, em seguida a de um defensor e, finalmente, minha própria análise. Continue lendo

Anarquismo: princípios e categorias, Grupo de Estudos Anarquistas Maria Lacerda de Moura

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Sexta-feira, 17 de novembro de 2017, UERJ, 9º andar.

Neste momento em que o anarquismo volta a ser criminalizado e a perseguição dos nossos (que nunca parou) volta à cena, torna-se fundamental debater nossos princípios, bem como os paradigmas de análise da realidade que guiam uma teoria política anarquista.
Para tanto, o grupo de estudos anarquistas Maria Lacerda de Moura contará com a presença do professor e cientista político Wallace Moraes (IFCS/UFRJ), que apresentará uma parte de seu recente trabalho sobre o tema, o texto ‘PARA TODO GOVERNANTE EXISTE UM GOVERNADO – PREÂMBULO DE UM PARADIGMA ANARQUISTA DE ANÁLISE’
Segue o link para o texto: http://www.otal.ifcs.ufrj.br/para-todo-governante-existe-um-governado-preambulo-de-um-paradigma-anarquista-de-analise/

Versão em PDF:
Wallace-Moraes-PARA-TODO-GOVERNANTE-EXISTE-UM-GOVERNADO

 

“É isso que dá se misturar com a esquerda!”

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Agora que vem à tona novamente o caráter traiçoeiro do MEPR e da RECC, me parece haver uma dúvida mais ou menos difundida sobre o porquê de anarquistas insistindo em agir ao lado de correntes socialistas divergentes, principalmente sendo amplamente conhecido o padrão histórico de sabotagens. Tentarei aqui esclarecer a questão.

Não é necessariamente uma crença de que as diversas correntes precisam se unir, mas o fato de que uma determinada categoria na qual os anarquistas militam ou pretende militar, seja estudantil, operária, servidores públicos, mulheres, camponeses, negros, o que for, já contém pessoas de outras correntes e elas são livres para se associar. No caso do Ocupa Bandejão UERJ, como os anarquistas poderiam fazer parte sem estarem juntos aos maoístas que também são estudantes? Alguém recomendaria que eles fossem barrados como barraram a ADEP? Talvez depois desse episódio, os estudantes unidos poderiam aprovar em assembleia que eles fossem banidos, mas isso deveria partir dos estudantes unidos e não por disputas vanguardistas.

Digamos que os anarquistas tenham um certa inserção em uma categoria profissional, ou seja, que alguns desses trabalhadores sejam anarquistas e queiram fazer trabalho de base entre os colegas. Porém já existe lá uma união ou sindicato não-anarquista, com vários trabalhadores associados. Você é um dos anarquistas. O que você faria? Buscaria excluir os colegas sindicalizados?  Se houvesse um piquete, você se negaria a participar pela presença desses colegas? Você tentaria sabotar as ações por não serem ideologicamente puras para você?

A ADEP também não é um grupo anarquista, mas um projeto de extensão da UERJ para a inclusão da população das favelas do entorno à universidade, primeiramente através de pré-vestibular no qual os alunos são convidados a participar ativamente na organização. O grupo busca quem esteja disposto a dar aulas e o requisito é saber passar o conteúdo necessário e estar disposto a trabalhar através da autogestão, respeitando o princípio de igualdade e não-opressão. Não é obrigatório ser anarquista para participar. A esperança é que os princípios anarquistas sejam transmitidos no processo. Mas isso não quer dizer que propostas para coisas como “sarau em honra ao nascimento do Grande Camarada Mao”  ou “Roda de ciranda com Marcelo Freixo” sejam válidas.  (Sim, eu escrevi Mao e Marcelo Freixo na mesma frase…)

Creio que quanto mais trabalho de base o anarquista realiza, mas ele se torna ciente disso. Mas isso de forma nenhuma explica, muito menos justifica, ações que alguns anarquistas vêm realizando, que vão de equivocadas a oportunistas. Associação a outros grupos que vão contra os princípios anarquistas deveria ser obviamente inaceitável, mas há indivíduos ou grupos que acham que, para se preparar omeletes, ovos devem ser quebrados. Isso é um pensamento utilitarista que compensa o descarte de indivíduos com a mera possibilidade de ganhos políticos coletivos. Isso é uma desproporção e uma despersonalização dos sujeitos, que são reduzidos a números em vez de pessoas que lutam por almejar experimentar os resultados dessa luta.

Não é aceitável fazer concessões a outras correntes através da transformações de companheiros em bois de piranha. Não é aceitável arrotar a necessidade de unidade ideológica enquanto coletivo anarquista, mas proteger erros graves dos membros de outras correntes em nome da manutenção dos elos de articulação firmados por meio da atuação por círculos concêntricos. No primeiro caso, é preciso aceitar ser descartável logo ao ingressar. No segundo, tem-se a ingrata surpresa, no momento mais crítico, que a sua segurança, nem a de ninguém fora da cúpula, é garantida.

Eu gostaria que fosse explicitada a ligação entre RECC e UNIPA, pois o primeiro é um grupo sem recorte ideológico além de traiçoeiro, já o segundo é uma organização anarquista. Havendo ligação, a UNIPA tem obrigação de se posicionar. Ao contrário do que alguns companheiros pregam, não creio que tais conflitos internos ao anarquismo devam ser resolvidos da forma mais privada possível com medo de enfraquecer ainda mais a aceitação e a inserção do anarquismo. As pessoas que chegam agora têm todo direito de saberem onde estão se metendo. Se a segurança delas é comprometida, elas precisam ter noção disso. Mesmo que seja apenas uma questão de divergência entre o que o “neófito” crê aceitável, ele merece saber no que está adentrando. Eu estou resistindo à tentação de aproveitar esse gancho para fazer críticas a outras organizações, mas acho que o contexto agora não pede. Abordarei isso caso a oportunidade surja.

Romance predatório nos filmes de Harrison Ford

Já que falamos de Blade Runner 2049, que tal falarmos também do padrão dos heróis machões interpretados por Harrison Ford que não aceitam não como resposta, especialmente se for de uma mulher?

Infelizmente o vídeo não tem legenda em português (ao menos ainda).

Blade Runner 2049 – O retorno [SPOILERS]

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Assisti o filme mais uma vez. 5 reais. Que beleza. Trouxe até os oclinhos de brinde. O quê? Não é brinde? Então cometi uma desapropriação. Vive la révolution!

Veredito: o filme é foda apesar dos pesares. Vamos falar do sexismo primeiro e, ao mesmo tempo, da questão racial.

Eu tive reforçada minha impressão de que o tom sexista é intencional. Muitos críticos apontam o sexismo no filme, mas parecem focar só nos aspectos mais superficiais, como comparar quantidade de exposição entre os dois sexos. Se eu fosse me resumir a isso, aquele close inesperado de uma piroca em Game of Thrones seria um ato de igualitarismo, quando na verdade foi um ato de machismo, como se um pênis aleatório fossa a devida compensação para toda objetificação feminina na série, mas não passa de um “fuck you all”. Não é bem assim.

Juntamente com o sexismo, você tem personagens negros e de cor apenas como pontas e em situações de desprivilégio social. Mas também vale lembrar que temos mostras de getificação em nível colossal, na qual as vidas dos habitantes do gueto não significam nada. Tais pessoas morrem como moscas. Violência policial no mundo de Blade Runner é norma.  Crianças são escravizadas e vendidas num orfanato no gueto e ninguém dá a mínima. O que eu tiro de tudo isso é que, apesar do filme focar na opressão fictícia dos replicantes, as outras opressões com correspondente no mundo real não diminuíram no universo do filme. Muito pelo contrário, pioraram. A luta de classes se intensificou. Maus tratos contra a criança estão em níveis alarmantes. As etnias minoritárias formam os guetos cyberpunks dos mercados negros de idiomas misturados. E as mulheres estão mais objetificadas do que nunca.

Quando KD6-3.7 / Joe toma sua grande decisão no final do filme, ele está observando o anúncio gigante da Joi nua. Entre aquele mundo vazio de consumismo e objetificação e uma causa maior, ele escolhe a causa maior. Noto também que as mulheres no filme demonstram rivalidade umas com as outras, da mesma forma que a sociedade coloca os oprimidos para brigar entre si em vez de se unirem (Joi vs. a prostituta, Luv vs. a chefe de polícia). Quanto a Luv, cuja motivação é satisfazer seu chefe e senho Wallace, não se pode ignorar que ela chora quando obrigada a testemunhar ou executar algo horrível. Chora por um dos olhos só e sem mudar muito sua expressão facial, embora em outros momentos ela não chora, mas muda sutilmente sua expressão para uma de desagrado. Talvez seja coisa da minha cabeça, mas creio que ela não gosta do que faz, mas é obrigada a fazer pois foi projetada para obedecer. Mesmo demonstrando autonomia para determinar como executar suas missões, ela ainda é obrigada a cumprir uma linha geral de ação da qual não pode desviar. Ela pode mentir sobre a morte da chefe de polícia, mas não pode deixar de agir conforme os interesses do patrão/dono.

Mas isso não quer dizer que o filme não tem problemas. Como homem, fica difícil falar dessas coisas com propriedade. Eu gostaria de discutir com uma feminista (mas não uma lib-fem) sobre esse filme para melhor compreender tais aspectos. Por exemplo, em que isso implica nas relações de trabalho entre atores e direção/produção? Como é dispor dos corpos das atrizes para ilustrar objetificação, mas não fazer o mesmo com os corpos masculinos? Será que essa objetificação não extrapola as personagens e se estende às atrizes? Como é saber que mais uma oferta de trabalho na indústria do cinema para uma pequena ponta ilustrando extrema vulnerabilidade ou exposição ao ridículo é, como de costume, voltada para intérpretes mulheres sem nenhum correspondente masculino no mesmo filme? Talvez alguém diga que não é bem assim, pois a personagem da chefe de polícia tem bastante personalidade e presença. Mas será que justamente por isso é a mulher mais masculinizada do filme? Se lembram quando chamavam Mad Max Fury Road de um filme feminista? Se lembram então que Furiosa é basicamente um homem num corpo de mulher? (Numa personagem que não era trans.)

É como eu já disse: não dá para esperar uma obra literalmente revolucionária a partir da indústria burguesa do espetáculo. A indústria do cinema sempre vai refletir a realidade de sua classe. Se nós formos buscar iluminação a partir da cultura de massa, buscaremos então migalhas. Mesmo assim, eu ainda considero um filme muito bom. Eu realmente gostaria de dialogar com uma companheira feminista para ouvir uma perspectiva mais apropriada do assunto, mas até lá, só espero não estar me esforçando para absolver as falhas do filme.

Sobre o detalhe de trama dos planos de Niander Wallace, que até pedi para os leitores me lembrarem, ele realmente é incapaz de criar replicantes férteis. O conhecimento para tal se perdeu no Blecaute. Acho um tanto tosco que ele saiba criar seres humanos, mas não saiba fazer o sistema reprodutório funcionar. Porém não há como saber detalhes de tal ciência, então só podemos confiar no que o filme apresenta.

E sobre a música, realmente achei que ela tem menos força do que a do original. Por decisão consciente dos compositores, ela é menos melodiosa e, por consequência, menos memorável. A trilha do Vangelis tem vários momentos que se podia cantarolar, o que acontece bem menos em 2049. Isso em si não é mal, apenas diferente. Mas há sim momentos de mais melódicos e mais fáceis de ficarem em nossa memória. Depois que Joe acorda na base dos revolucionários, tem um teminha de piano com efeitos eletrônicos que me pareceu já ter sido tocado em outros momentos em que o protagonista está em tela. Um leitmotiv, portanto, mas eu precisaria assistir uma terceira vez para conferir isso especificamente. Tem o momento da perseguição de carro, que apesar de não ser melodiosa, toca uma sequência de alarmes com sintetizadores distorcidos que não te deixa desviar a atenção. Mas o trecho que eu mais gostei foi justamente quando a música soou mais Vangelis, que é quando o carro que levava Deckard cai na barragem d’água. Eu não sei se aquele é um trecho da trilha do primeiro filme ou se foi feito para soar como se fosse, mas aqueles synth leads em saw wave ressonantes é clássico Vangelis. Pensei até que fosse ali a contribuição de Jóhann Jóhannsson, mas depois fui saber que ele acabou sendo desligado do filme. (O tema de Arrival que ele compôs é lindo.) Me lembro dele comentando numa entrevista sobre o respeito e admiração que ele tinha pelo trabalho do Vangelis, então pensei que ele tivesse tentado emular seu estilo para o filme, mas não era ele ali em 2049. Não sei se falo como o ex-músico ou como o fã da trilha sonora original, mas aquele trecho da trilha sonora foi o meu preferido.

Apesar de ter gostado do filme, eu continuo achando que seria melhor sem holograma estilo holodeck ou Robocop da tv…

[Off-Topic] Blade Runner 2049 – impressões [SPOILERS]

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Eu fiquei um tanto confuso com esse filme, porque a expectativa era muito grande. Acho que eu preciso ver de novo para avaliar. Mas aqui vão alguns pontos.
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*O filme é machista. Mas tão machista que eu fui obrigado a imaginar que eles estava fazendo um paralelo entre as mulheres e os replicantes. É frustrante chegar cheio de expectativa para ver um filme de importância histórica para o cinema e perceber que os criadores pisaram na bola tão feio. Faz você perceber a força do status quo cultural ver que algo pode ser tão prevalente numa obra sem que talvez os responsáveis sequer tenham se dado conta disso.
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* Não só pelo sexismo, mas em termos de ficção científica, Joi é uma personagem que não deveria existir. Basicamente uma boneca inflável virtual (embora intangível) – e é justamente assim que ela avança a narrativa. Ela, de cara e sozinha, baixa o nível de dureza do sci-fi em vários graus. Tá certo que carro voador não é lá hard sci-fi, mas quando você coloca um holograma andando para lá e para cá sem restrições, fica parecendo aquele seriado para tv do Robocop. O holodeck do Star Trek é mais plausível por se passar no século XXIV, não daqui a 32 anos.
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* O que contribui para a sensação de que o mundo de Blade Runner não é mais tão plausível por perder conexão com o presente. O mundo do filme original parecia se passar 20 minutos no futuro. Você já pode andar por ruas muito semelhantes às daquele filme. Já 2049 parece distante.
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* Graças às limitações, o primeiro filme parecia aconchegante, apertadinho, o que explica em parte o ponto anterior. 2049 parece épico. Tudo é muito grande, apoteótico. Em si, não é algo ruim, mas nos faz lembrar de que se trata de um outro filme, logo diferenças devem ser esperadas, do contrário seria apenas repetição.
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* Os vastos e vazios salões de Wallace me pareceram primeiramente saídos de alguma space opera, até eu notar que não são tão diferentes da arquitetura modernista brasileira. Não digo que esses cenários foram inspirados no Brasil, até porque a arquitetura brasileira é influenciada pela estrangeira. Acho que tinha algo de Japão ali.
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* O filme é muito mais pós-apocalíptico do que poto-cyberpunk como o original, em parte justamente pelo fim de certas limitações. As panorâmicas de miniaturas que faziam tudo parecer um complexo industrial no primeiro filme agora são panorâmicas em computador que transformam a cidade inteira numa favela. Mesmo que a sequência no que parece ser o Deserto de Nevada seja feita in loco, é claro que ela foi complementada em CG para ficam mais ampla.
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* Pela pegada mais pós-apocalítica, 2049 em sua ambientação se assemelha mais ao livro do que ao filme original. Até a neve é suja, o que é uma clara referência à precipitação radioativa do livro.
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*Por falar em Nevada, aquelas estátuas gigantes de strippers parecem indicar que o sexismo foi intencional, porque não é possível que elas estivessem lá só porque na Las Vegas do mundo real elas provavelmente existam. Em Las Vegas, tem capelinhas com pastores vestidos de Elvis Presley e eu não vi nenhuma no filme. Em outras palavras, eles botaram aquilo ali por decisão consciente e, da mesma forma, poderiam não ter colocado. Com certeza é um paralelo com os anúncios holográficos gigantes de Joi. As Jois do passado e as Jois do futuro. Não há uma versão masculina de Joi no filme inteiro, assim como não tem estátuas de gogo-boys.
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* Talvez aquilo nem seja Las Vegas, mas um lugar semelhante que construíram no mundo do filme, o que faz dele mais distante ainda de nosso mundo presente. Porém Las Vegas é próxima à fronteira entre Nevada e Califórnia, logo pode ser ela sim.
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 * O problema é que o filme não problematiza a função da mulher na sociedade, apenas dá dica sutilmente, de forma que se o expectador não estiver ligado, a mensagem acaba reforçando o sentido contrário do que tenta passar. Vi uma crítica falando mal de como os replicantes de 2049 jogam fora sua individualidade ao contrário de Roy Batty. Ela diz que “se matar por uma causa maior é a coisa mais humana que alguém pode fazer” é algo típico que um demagogo falaria para seu povo. Claro, essa crítica parte de uma mentalidade liberal que reprova qualquer semblância de coletividade, logo ela não pode ver que você pode se sacrificar sem que um líder ordene – sim, altruísmo é parte da natureza humana tanto quanto a subjetividade do indivíduo, aliás, as duas coisas são inseparáveis. Porém uma revolução usando prostituição justifica o argumento dessa crítica. Uma coisa é você se sacrificar para salvar vidas alheias, mas ser tratada como ferramenta para um fim é grave. Óbvio que o filme não precisa retratar um mundo perfeito (do contrário, não teríamos Blade Runner, mas Família Margarina 2049), mas é a soma de todos esses elementos apresentados como sem problemas que faz com que determinadas afirmações da obra se percam.
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* E com isso chegamos ao meu grande medo: o filme deixa aberta a possibilidade de mais uma sequência! NÃO!! Eu não quero ver no que vai dar a Revolução Replicante! Deixem Blade Runner ser apenas as histórias das personagens ali apresentadas em vez de um universo expandido. Eu sei que já existem romances e games, mas ninguém se lembra deles. Não transformem Blade Runner em Star Wars!
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* Aquela crítica americana supracitada parece não ver que o filme não tem intenção de forçar a revolução replicante como algo inquestionavelmente bom (ou talvez ela perceba e não expressou). O desenrolar dessa revolução pode ser justamente com ela falou: com um líder usando os seus subalternos como estritos meios para um fim. E o filme deixa claro que a revolução pode significar o fim da humanidade. Isso é mais um motivo para eu não querer um terceiro filme, pois teríamos o fechamento de uma saga. Prefiro que fique em aberto, sempre presente, nunca concluído.
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* Aliás, a busca por individualidade de Roy Batty deixou um rastro de mortos entre replicantes e humanos. Ele não era o rei da empatia. “Ó, que bunitinho, Roy Batty só queria ter sua individualidade reconhecida!” Não é bem assim.
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* Cyberpunk é geralmente uma reimaginação do conceito de luta de classes, mas como também é geralmente coisa de americano, você não vai achar uma conceitualização muito clara ou fiel na narrativa. Dizem por aí que o capitalismo pode se apropriar de qualquer causa para enfraquecê-la, menos a luta de classes. O cyberpunk prova que estão errados. Nós compramos ingressos para assistir uma catártica luta de classes pasteurizada. Rick & Morty apresentou, nessa temporada, um capítulo não só parodiando, mas analisando e criticando a política atual americana partindo da premissa da luta de classes, mas o que fazemos depois de assistir o episódio? Continuamos com nossas vidas? Nós assistimos esse tipo de narrativa justamente para nos contermos de realizá-las na vida real. É como tirar férias do campo para não pirar de vez e abandonar a civilização de vez.
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* E como 2049 é produto de seu meio, é claro que o elenco principal é branco. É até enfadonho falar disso quando Hollywood inteira é assim. Não dá para esperar coisa muito diferente. Mas num filme que justamente pega as experiências reais de minorias excluídas para reciclá-las numa história protagonizada pelo macho branco resulta numa situação do tipo “é o máximo que podemos conseguir”.
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* Se você vai substituir as pautas do mundo real por uma nova no seu filme sobre o futuro, ao menos se certifique de que elas foram resolvidas. Do contrário, porque você tá ignorando formas de exclusão num filme sobre exclusão?
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* Um filme sobre dominação de classes e exclusão por identidade social cujo intuito é gerar muita grana para uma classe de brancos ricos – e japoneses da Sony também. Yay.
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*Eu queria assistir de novo antes de falar da trilha sonora, porque eu não senti a mesma força que senti no original, então gostaria de prestar mais atenção a ela.
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ATUALIZAÇÃO [O maior spoiler do post será agora]:

* Tem uma coisa que eu preciso ver de novo, pois não me lembro bem. Talvez alguém possa me tirar essa dúvida: Qual o real motivo de Wallace não poder criar replicantes férteis? Porque a lei não permite? Porque ele não sabe? Se ele quer e sabe como, então pouco importa a lei e ele vai quebrá-la. Portanto qual a importância de encontrar a filha de Deckard se basta ele querer? Então ele não sabe como. Ele sabe criar um ser humano inteiro artificialmente, mas não sabe fazê-lo fértil? Sério isso? As informações sobre como criar replicantes férteis se perderam no Blecaute? Então como o restante das informações sobre como criar replicantes permaneceram? Foi só a técnica de fertilidade que se perdeu? Ou seja, as blueprints da Rachel foram perdidas? Ou a fertilidade nunca foi dominada pela Tyrell Corp e aconteceu como acidente?